Palavras mala

O meu gosto pela escrita é antigo. A partir de um determinado momento da minha vida entendi organizar-me e disciplinar-me. Disciplinar sem me subjugar ao determinismo do discurso frio e ausente de silêncios e de afetos. Não estando em idade de procurar ciência literária decidi participar em oficinas de escrita. Dinamizados por gente séria deste “… ofício de dar lustro às palavras e pô-las em conversa umas com as outras…” (Amélia Muge dixit). Conheci nestas andanças Pedro Sena-Lino, Nuno Brito e Jorge Palinhos.

 

 

No Contagiarte, no Porto, fui uma esponja do saber transmitido pelo Jorge Palinhos, durante um curso ao nível de mestrado, estou certo, quer em extensão temporal, mas muito mais dos seus conteúdos. Com o Jorge aprendi a “tirar gorduras aos textos” e uma outra novidade extraordinária de que conhecia e conheço exemplos, mas que nunca tinha tido conhecimento formal, com enquadramento literário. Refiro-me às palavras-mala, mot-valises ou portmanteau words. Num recente contato com aquele dramaturgo, disse-me que, em português, podemos referir-nos numa só palavra a estes “… processos de criação lexical”, como amálgamas. Segundo o mesmo contributo, esta temática está teorizado no âmbito da linguística, em Portugal, por Margarita Correia¹

 

 

Na literatura lusófona Mia Couto é um bom e prolifero exemplo de criador deste amalgamar das palavras. São suas, por exemplo as palavras: abismaceira, barbalhudo,  embevencida,  magrizelento, cabisburro, sonhâmbulo e satisfeição (ver estudo de  NUNES, Ana Margarida; COIMBRA, Rosa Lídia – “Um Estudo da Amálgama e do seu Valor Metafórico em Mia Couto”²

Bem ... e então oh escriba para que serve este relambório. Para dizer que estou cá de novo e num outro domínio virtual. Deixei-me de economicices e decidi deambular pelas palavras. Nesta série de escritos que colocarei agora à disposição dos leitores proponho-me deambular pelas palavras. Como é muito comprido esse título aventurei-me a amalgamá-lo. Vai daí com as partes deambu e lavras dos vocábulos deambular e palavras criei (armado em Deus, que vaidade, que blasfémia) deambulavras.

Deixarei que o meu pensamento flua e a minha energia criativa me apele a transmitir algo de interessante para os meus leitores. De que falarei provavelmente: os cidadãos e a sua intervenção na Sociedade, a administração local e o fogo de artifício, instrumentos para a escrita (nada de penas, canetas e lápis, às tantas nem papel), devaneios de alma, perversões da existência, o silêncio da ausência, …. Bem já chega. Não acham.

Entretanto os momentos de confinamento interrompido (tal como o coito) vai-nos impedindo ou o contrário de deambular pelas palavras. 

 

 

Cristóvão Sá-πmenta

 

 ¹ (https://www.wook.pt/autor/margarita-correia/10083).

 ² disponível em 20-12-2020,  18:31 Horas, no site: http://sweet.ua.pt/rlcoimbra/documentos/2007_6CILG.pdf)

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