Ontem, depois do jantar, estive a mexer no fundo das gavetas, porque, de um momento para o outro, a saudade invadiu o meu pensamento. Por isso encontrei esta foto, que, para mim, é uma relíquia.

A relíquia, que foi tirada pela minha mãe, retrata o primeiro peixe que pesquei no rio da minha cidade, no rio que, durante o Verão, eu nadava até ficar com os dedos das mãos como o rosto dos velhos.

Se eu hoje tivesse a idade que tinha na foto, não conseguiria sentir o prazer de ter a cana aos tropeções, de ver o sorriso da minha mãe, de ouvir o meu pai a dizer-me, “Levanta a cana. Agarra no peixe”, porque o cheiro nauseabundo assassinou o sorriso da pequenada, assassinou os beijos na ponte romana e abrigou a quem vive perto do rio a pedir a Ele um dia melhor.

Não sei se esse dia chegará. Mas eu gostava que chegasse. Eu gostava que fosse tudo como dantes, tudo, pois eu gostava de voltar a pescar no rio da minha cidade, eu gostava de tirar um retrato a um menino com um peixe na mão.  

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