A democracia teve o mérito de convergir os conceitos de política e sociedade. Uma não avança sem a outra e só com transparência e seriedade no domínio da política permite construir uma sociedade mais justa e igualitária. Na teoria, tudo parece bater certo na democracia, mas para que tal aconteça é necessário que os políticos cumpram com as promessas assumidas quando tomaram posse de um governo, seja ele local ou nacional, para não caírem na teia da mentira e desrespeito pelos cidadãos. Este pensamento é transversal e a parte da mentira pode enquadrar-se nos municípios em que as políticas do seu líder não se enquadram com as premissas da justiça e igualdade de tratamentos. Principalmente quando existem manobras sinistras e sinuosas, com o objetivo de favorecimentos próprios e dos seus semelhantes. A política não pode ser isto. Deve existir apenas a preocupação de criar condições para melhorar a condição de vida dos seus cidadãos, e sempre com políticas baseadas na boa-fé. É por isso que defendo os candidatos que assumem publicamente que não concordam com esta forma de fazer política e se comprometem a romper em definitivo com essa visão. Estou ao lado dos políticos que demonstram coragem para enfrentar o poder sem medos e construam o seu caminho de luta contra esse regime. Mas que essa coragem seja real e não uma forma de camuflar esquemas maquiavélicos de cooperação com o poder. E como a mentira tem perna curta, a verdade virá sempre ao de cima. Que aqueles que pretendem enfrentar o poder de uma autarquia, que demonstrem efetivamente ao que vão e sejam cristalinos nas opiniões.

Não deixa de ser irónico e muito preocupante o que está a acontecer no Rio Ferreira nos últimos meses. As descargas provocadas pela ETAR de Arreigada estão a matar a fauna e a provocar um verdadeiro atentado à saúde pública. Tudo isto a acontecer às claras e com a maior das tranquilidades por quem tem responsabilidades políticas. Justificar o atentado com as obras de requalificação na estação de tratamentos, ou dizer que as entidades competentes estão atentas ao problema, é o mesmo que passar um atestado de burrice à população que divide o leito do Rio Ferreira, em Arreigada e, principalmente, em Lordelo, estas pessoas são as principais vítimas dos cheiros nauseabundos que se sentem e a visão perturbadora de dejetos a submergirem nas águas.

Mas foi irónico ver recentemente as fotografias de uma visita à ETAR feita por responsáveis autárquicos de Paços de Ferreira e Paredes. Demonstraram uma tranquilidade demasiado apática para a realidade do problema. E, para além disso, não existe uma coerência no discurso dos responsáveis pacenses, nomeadamente, o presidente da câmara e o vereador do Ambiente, num ano em que este deveria preservar ainda mais o pelouro que alberga, para fazer jus ao Ano Municipal do Ambiente. Não chega mostrar-se para as fotografias. Deve mostrar-se e ser-se para as pessoas. E aqui existe um esquecimento e uma indiferença demasiado penosa.

O município de Paços de Ferreira ficou desde quarta-feira sem o seu representante máximo na Assembleia Municipal. O pedido de demissão (aparentemente) irreversível apresentado por Ricardo Pereira deve ser analisado com ponderação para podermos retirar conclusões assertivas. Como ponto prévio, não posso deixar passar a oportunidade para felicitar Ricardo Pereira pelo ato de coragem demonstrado na assembleia extraordinária, não só pela sua condução, como, principalmente, por assumir uma posição que revela caráter, ética e, acima de tudo, respeito para com os cidadãos. Ricardo Pereira provou com a sua decisão de que está na política para servir e defender com as armas de que dispõe a população de Paços de Ferreira. Está ao serviço do povo e não em seu benefício.

A assembleia de quarta-feira entra na história da democracia em Paços de Ferreira. Não só pela primeira demissão de um presidente da Mesa da Assembleia “por falta de confiança na Câmara Municipal” e por não compactuar com esquemas pouco transparentes e que revelam desconfiança sobre quem tem responsabilidades.

Mas esta assembleia não ficou marcada apenas pela demissão de Ricardo Pereira. Há um outro aspeto que merece atenção e ponderação. Percebemos que o executivo municipal esteve representado por apenas quatro vereadores; Paulo Sérgio Barbosa, que assumiu o cargo de presidente da Câmara, Joaquim Sousa, Joaquim Pinto e José Ribeiro (em substituição de Célia Carneiro). Faltaram três elementos eleitos pelo PS: Humberto Brito, Paulo Ferreira e Filomena Silva e não encontro uma explicação lógica para estas ausências, tendo em conta a importância que a assembleia representava para a transparência do município. Será que convinha a alguém não participar por questões de comprometimento a algum dos pontos que foram a discussão, principalmente a ata de 28 de dezembro? Se assim for, o descrédito sobre este faltoso sobe de tom e os munícipes ficam legitimados para questionar se terá condições para continuar a exercer as suas funções. Não podemos ignorar o teor da ata que estava para aprovação. Nada mais, nada menos, que a atualização do IMI… um valor que, segundo o presidente da câmara, não iria sofrer qualquer alteração. E o FAM quer saber se é verdade, ou não.  

O chavão ‘não pode valer tudo na política' é usado com recorrência e, por vezes, de forma leviana. Mas há momentos em que esse termo se aplica com a máxima das verdades, porque assistimos a acontecimentos em que, na realidade, não pode valer tudo. Principalmente quando percebemos da existência de teatros mediáticos proporcionados por alguns atores, que querem ficar com o protagonismo em função de uma ambição desmedida e narcisista.

A última Assembleia Municipal extraordinária realizada no salão nobre da Câmara Municipal de Paços de Ferreira ficou marcada por decisões pouco ou nunca vistas na história da democracia local. O pedido de demissão do presidente, Ricardo Pereira, foi o ponto mais alto da noite, mas há outros pontos que devem ser muito bem escrutinados para compreender o que realmente se está a passar na nossa política. Como é público, a reunião tinha como único objetivo a análise e aprovação das polémicas atas de assembleias anteriores, com especial enfoque para a de 28 de dezembro do ano passado. A fixação da taxa do IMI e a consequente necessidade de comunicação ao FAM das decisões tomadas funcionaram como bombas relógio para os seus decisores e as consequências foram nefastas. Uma fatalidade dessa reunião obrigou ao adiamento da mesma para o dia seguinte e que teve como secretários da mesa da assembleia os líderes de bancada do PS e PSD. Assinaram as minutas da reunião e vincularam-se a um documento que, afinal, não correspondia com o que havia sido discutido. Houve o comprometimento dos dois partidos às minutas lavradas e confirmaram o que ali se passou com as assinaturas. Se assinaram às cegas, não sabemos, mas a verdade é que a ata continua por ser aprovada e terá uma nova tentativa (provavelmente definitiva) no dia 10 de agosto. Agora vamos ao concreto. A ata não foi aprovada na última reunião porque a bancada do PS não reuniu o número suficiente de deputados que garantissem a aprovação da mesma. Mau trabalho de casa da bancada que detém a maioria? Parece que sim. O PSD neste ponto saiu vencedor e não aprovou o documento por continuar a verificar incongruências na sua redação. Mas que incongruências são essas afinal? O PSD, enquanto oposição, conseguiu um feito inédito em Paços de Ferreira, que foi chumbar uma intenção do partido que está no poder e, estranhamente, não mais se pronunciou publicamente sobre os motivos que levaram à intenção de não aprovar a ata. Existe matéria dúbia que possa comprometer a gestão de uma autarquia? Se de facto assim é, e enquanto representantes do povo, a oposição já não deveria ter agido em conformidade e acionado os mecanismos que a lei tem ao dispor, sejam eles civis ou criminais? O mistério das atas prevalece e, aqui, a oposição também tem uma responsabilidade acrescida, por saber qual é o ponto de gravidade e mostrar-se estar a ser conivente com este mistério.  E estranha-se ainda mais o silêncio do líder do partido da oposição, quando sabemos que o seu papel deveria ser o da defesa das pessoas, pela responsabilidade que assume na sociedade. Assim transmite-se a ideia de que não existem diferenças entre o poder e a oposição…

As eleições autárquicas são o reflexo da vitória da democracia em Portugal. O povo ficou com o poder de eleger as pessoas (ou partidos) que consideram transmitir as melhores competências para gerir o município em prol do bem-estar social e essa qualidade de vida das famílias está intrinsecamente ligada à esfera económica.