Jovem de Santo Tirso procura transmitir uma mensagem através da sua exposição fotográfica

Bárbara Costa Dias tem 22 anos e é natural de Santo Tirso. Tem uma paixão enorme pela fotografia e pela moda. Recentemente, na casa de Chá em Santo Tirso, apresentou a sua primeira exposição fotográfica, onde representa momentos de vida diários e do quotidiano que nos passam “ao lado” e que estão carregados de significado.

Direitos Reservados

 

Tendo em conta esta paixão pela fotografia e a apresentação desta exposição em tão tenra idade, o EMISSOR entrevistou Bárbara para perceber quais são os seus objetivos e o que é que a inspira a trabalhar na área da fotografia.

 

EMISSOR: Consegue lembrar-se de quando e como começou o seu gosto pela fotografia?

Bárbara Dias (BD): Lembro-me de ser pequenina e me estarem constantemente a fotografar com máquinas de rolo. Aquele entusiasmo do tempo de espera até as fotografias estarem finalizadas e o fotógrafo telefonar a avisar que estavam prontas era algo espetacular, coisa que nos dias de hoje, no geral já não acontece.

O amor pela lente surgiu a parti daí - das pessoas que me rodeavam me estarem constantemente a fotografar e do meu carinho pela moda. Desde pequena que sempre sonhei em ser modelo. Pode parecer cliché [risos], mas é de facto um sonho que ainda perdura. Sempre adorei ser fotografada, sempre adorei desfilar para os outros.

Aos meus 14/15 anos pedi a minha primeira máquina fotográfica aos meus pais. Ofereceram-me uma máquina compacta amadora. Uma máquina touch de cor vermelha que ainda a guardo e uso com carinho. Acompanhou-me durante muito tempo em várias aventuras. No natal de 2015 os meus pais ofereceram-me uma câmara semiprofissional. Foi amor à primeira vista. A partir daí sempre me acompanhou para todo o lado.

Mas este amor pela lente realmente foi honesto comigo quando criei o meu blog dedicado ao mundo da moda. Comecei a aperceber-me que me dava mais gosto e tinha mais paciência em fotografar e editar do que propriamente fotografar artigos e peças de roupa e até mesmo escrever sobre isso. E de facto a edição sempre mexeu comigo de certa forma.

Assim, este amor pelo clique foi crescendo até eu criar o meu primeiro blog dedicado apenas à fotografia, sem textos aborrecidos. Agora, o amor pela lente sempre existiu. É daquelas coisas que já nasce connosco.

Direitos Reservados

 

EMISSOR: Que iniciativas pessoais (projetos) tem para partilhar a sua fotografia, ou seja, a sua forma de ver o mundo?

BD: Gosto de fazer com que os outros sejam ouvidos, neste caso, ouvidos por uma lente, tanto fotográfica como a lente do meu olhar.

Existe um enorme tabu em torno da saúde mental e eu fujo um pouco para esse lado sentimental e das expressões “vazias”. Acho que é a minha grande iniciativa pessoal e involuntária. Para mim, é espontâneo fotografar apenas caras ou alguém pensativo.

Organizar uma exposição que demonstre o vazio da sociedade quando esta se envolve numa rotina vazia, motiva-me bastante.  Daí o grande mote da minha primeira e humilde exposição de fotografia que parte exatamente disso - vivemos numa sociedade apressada - congelada nas rotinas. A cada dia tento procurar o foco do instantâneo, do alusivo, do real e da transparência.

O projeto “Uma alma por detrás de uma lente”- parte precisamente dessa busca incessante que tanto invoco, de forma a retratar o que vejo ou o que tento ver quando possuo linhas de distração no meio de uma multidão de almas vazias. Existe uma correria e, por vezes, esquecemo-nos de parar, olhar, ver e observar com atenção.

 

EMISSOR: Quais as suas maiores inspirações no mundo da fotografia?

BD: A MAGNUM PHOTOS é a minha forte inspiração no seu todo e com toda a arte fotográfica que partilha. Com a diversidade de obras, consigo inspirar-me e, ao mesmo tempo, não me desfoco da minha linha fotográfica. Diria que o Steve McCurry e Abbas Attar seriam os que estariam na lista de contactos de emergência, se assim fosse [risos], mas existem tantos outros.

 

EMISSOR: Sabemos que trabalhou numa exposição de fotografias intitulada de “Uma alma por detrás de uma lente” na casa de chá, em Santo Tirso. Como se sentiu durante a exposição e perante esta conquista pessoal?

BD: Sempre sonhei bastante e sempre tive muitos objetivos de vida. Vivi sempre a pensar no futuro e ansiosa com o que poderia realizar na vida. Um desses objetivos/sonhos era, de facto, puder realizar uma exposição de fotografia, que acabou por se realizar num futuro muito próximo [risos].

Estamos a vivenciar um momento bastante crítico e inconstante nas nossas vidas e, sendo este um período difícil para encontrar estabilidade profissional e uma ponte de equilíbrio emocional onde mora a ansiedade e o medo, decidi criar a exposição, que acabou por me trazer um pouco de alento, esperança e motivação.

Era algo que realmente estava a precisar na minha vida. Sinto-me mais preenchida, realizada e feliz. Sei perfeitamente que se trata de algo simples e humilde e que, aos olhos de muitos, pouco ou nada significa, mas, para mim, tem um enorme valor.

A boa turbulência cheia de adrenalina desde a escolha das fotografias que contassem uma história, à verificação da qualidade das mesmas, às opiniões e dicas de colegas de artes que me ajudaram a escolher o melhor material para a impressão das fotografias, à decoração que queria colocar - que era algo que eu queria obrigatoriamente que tivesse a ver comigo, obter algumas autorizações de alguns retratos (…) portanto, foi toda uma aventura de poucas burocracias, mas que foi gratificante passar por um processo de organização que nunca tinha experienciado antes.

Aprendi bastante com esta pequena caminhada abraçada em conjunto com o meu colega Nuno Ruas, um jovem artista com um grande talento no mundo da arte da fotografia e do cinema e que me ensinou bastante ao longo deste pequeno período. Apesar da exposição ser algo simples, deu o seu trabalho de construção até estar exposto nas paredes da casa que me acolheu de braços abertos.

Direitos Reservados 

 

EMISSOR: Uma característica que se demonstra igual ao longo das suas fotografias é precisamente a escolha pelo preto e branco. Porquê?

BD: Sinto que o preto e branco é a melhor forma de expressar um sentimento, um retrato, uma expressão… e é o melhor contraste que existe, que consegue retratar exatamente aquilo que eu quero transmitir ao mundo.

É a melhor leitura que existe, na minha humilde opinião. Uma leitura que quebra o silêncio depois de uma breve pausa a saborear o que o olhar contempla.  Com nenhum elemento de contrastes vibrantes, torna-se nítido o ambiente envolvente na fotografia. Prende-nos com esses dois elementos: o preto e o branco agarra-nos. É como olhar para uma tela ou uma obra abstrata - sentamo-nos a olhar e ficamos mais de cinco minutos a tentar decifrar aquela obra e procuramos atribuir um significado sobreposto ao do artista que o concebeu.

 

EMISSOR: O que pretende captar com a sua fotografia?

BD: O meu mundo e aquilo que os meus olhos captam em determinado momento quando nada é planeado, simplesmente é o clique do momento e eu fotografo aquilo que vejo. O propósito da minha fotografia é congelar o momento que estou a viver em detrimento daquilo que me rodeia. Retratar o real, nu e cru e transmitir uma mensagem com essa lente despida que só quer enviar uma mensagem transparente daquilo que vejo.

 

EMISSOR: Considera que as suas fotografias podem mudar, de alguma forma, o pensamento de quem as vê? Ou, pelo menos, as faça refletir?

BD: Acredito piamente que sim. Mais ainda porque fazem mudar o meu próprio pensamento sempre que as vejo. Basta congelar numa cara de um indivíduo que desconheço por completo e que nunca uma palavra prenunciei que algo me faz refletir e sentir - seja uma ligeira empatia ou estranheza.

 

Direitos Reservados

 

EMISSOR: Sente que existe uma diferença sentimental entre a fotografia impressa e a fotografia digital?

BD: A fotografia “impressa”, das câmaras descartáveis ou de rolo, criou um valor sentimental enorme com a chegada do digital, gerando um sentimento de perda.

Eu cresci com as fotografias de família impressas enquanto estava sentada sozinha, a rir-me ou a falar para os meus botões sobre determinada fotografia, ou até mesmo chorar por nostalgia.

Cresci a ver fotografias com a família enquanto me contavam cada história que complementava cada fotografia que íamos vendo. Momentos repletos de amor, união e felicidade, com alguma tristeza à mistura sobre alguma pessoa ou história que cada álbum trazia consigo. Magia essa que não acontece com a fotografia digital. Não há o toque. Não há o sentimento mais ténue.

E claro que, comparar uma fotografia de uma câmara digital a uma de rolo também tem as suas características: como a facilidade que existe em fotografar, como apagar uma fotografia que não tenha ficado tão bem, por exemplo, o que não acontece com as analógicas.

 

EMISSOR: Existe alguma fotografia que mais a marcou de entre todas aquelas que fotografou?

BD: Existe uma em particular de um senhor já com uma certa idade que se encontrava no Shopping Via Catarina, nos inícios de 2018. Era um engraxador de sapatos e encontrava-se no piso das refeições. Estava sentado com uma mão sobre a cara. Um rosto acabado, pensativo em que eu imaginei que seria mais um dia de trabalho que contava com poucos “tostões”, enquanto “nós” saboreávamos uma bela refeição e se calhar com mais sorte do que aquele senhor, cujo nome ainda hoje desconheço.

Lembro-me de estar sentada à mesa com uns colegas da universidade. Estávamos todos contentes a conversar e eu não parava de observar aquele velho senhor cujo meu olhar decidiu cruzar. Aquele rosto traçado pelo tempo e aquele olhar triste perturbou-me de certa forma. Decidi pegar na câmara fotográfica e registar.

Lá criei o meu monólogo: “Um velho engraxador sem clientes enquanto nos vê a saborear bons pratos de comida”. Narrei uma pequena história. Era um mau dia de trabalho. 

Foi exatamente pela sua feição, o ar nostálgico, triste e pensativo dele que me fez estar colada durante algum tempo - sentimentos que gosto de transparecer nas minhas fotografias.

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Jovem de Santo Tirso procura transmitir uma mensagem através da sua exposição fotográfica

Jovem de Santo Tirso procura transmitir uma mensagem através da sua exposição fotográfica

Bárbara Costa Dias tem 22 anos e é natural de Santo Tirso. Tem uma paixão enorme pela fotografia e pela moda. Recentemente, na casa de Chá em Santo Tirso, apresentou a sua primeira exposição fotográfica, onde representa momentos de vida diários e do quotidiano que nos passam “ao lado” e que estão carregados de significado.

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Tendo em conta esta paixão pela fotografia e a apresentação desta exposição em tão tenra idade, o EMISSOR entrevistou Bárbara para perceber quais são os seus objetivos e o que é que a inspira a trabalhar na área da fotografia.

 

EMISSOR: Consegue lembrar-se de quando e como começou o seu gosto pela fotografia?

Bárbara Dias (BD): Lembro-me de ser pequenina e me estarem constantemente a fotografar com máquinas de rolo. Aquele entusiasmo do tempo de espera até as fotografias estarem finalizadas e o fotógrafo telefonar a avisar que estavam prontas era algo espetacular, coisa que nos dias de hoje, no geral já não acontece.

O amor pela lente surgiu a parti daí - das pessoas que me rodeavam me estarem constantemente a fotografar e do meu carinho pela moda. Desde pequena que sempre sonhei em ser modelo. Pode parecer cliché [risos], mas é de facto um sonho que ainda perdura. Sempre adorei ser fotografada, sempre adorei desfilar para os outros.

Aos meus 14/15 anos pedi a minha primeira máquina fotográfica aos meus pais. Ofereceram-me uma máquina compacta amadora. Uma máquina touch de cor vermelha que ainda a guardo e uso com carinho. Acompanhou-me durante muito tempo em várias aventuras. No natal de 2015 os meus pais ofereceram-me uma câmara semiprofissional. Foi amor à primeira vista. A partir daí sempre me acompanhou para todo o lado.

Mas este amor pela lente realmente foi honesto comigo quando criei o meu blog dedicado ao mundo da moda. Comecei a aperceber-me que me dava mais gosto e tinha mais paciência em fotografar e editar do que propriamente fotografar artigos e peças de roupa e até mesmo escrever sobre isso. E de facto a edição sempre mexeu comigo de certa forma.

Assim, este amor pelo clique foi crescendo até eu criar o meu primeiro blog dedicado apenas à fotografia, sem textos aborrecidos. Agora, o amor pela lente sempre existiu. É daquelas coisas que já nasce connosco.

Direitos Reservados

 

EMISSOR: Que iniciativas pessoais (projetos) tem para partilhar a sua fotografia, ou seja, a sua forma de ver o mundo?

BD: Gosto de fazer com que os outros sejam ouvidos, neste caso, ouvidos por uma lente, tanto fotográfica como a lente do meu olhar.

Existe um enorme tabu em torno da saúde mental e eu fujo um pouco para esse lado sentimental e das expressões “vazias”. Acho que é a minha grande iniciativa pessoal e involuntária. Para mim, é espontâneo fotografar apenas caras ou alguém pensativo.

Organizar uma exposição que demonstre o vazio da sociedade quando esta se envolve numa rotina vazia, motiva-me bastante.  Daí o grande mote da minha primeira e humilde exposição de fotografia que parte exatamente disso - vivemos numa sociedade apressada - congelada nas rotinas. A cada dia tento procurar o foco do instantâneo, do alusivo, do real e da transparência.

O projeto “Uma alma por detrás de uma lente”- parte precisamente dessa busca incessante que tanto invoco, de forma a retratar o que vejo ou o que tento ver quando possuo linhas de distração no meio de uma multidão de almas vazias. Existe uma correria e, por vezes, esquecemo-nos de parar, olhar, ver e observar com atenção.

 

EMISSOR: Quais as suas maiores inspirações no mundo da fotografia?

BD: A MAGNUM PHOTOS é a minha forte inspiração no seu todo e com toda a arte fotográfica que partilha. Com a diversidade de obras, consigo inspirar-me e, ao mesmo tempo, não me desfoco da minha linha fotográfica. Diria que o Steve McCurry e Abbas Attar seriam os que estariam na lista de contactos de emergência, se assim fosse [risos], mas existem tantos outros.

 

EMISSOR: Sabemos que trabalhou numa exposição de fotografias intitulada de “Uma alma por detrás de uma lente” na casa de chá, em Santo Tirso. Como se sentiu durante a exposição e perante esta conquista pessoal?

BD: Sempre sonhei bastante e sempre tive muitos objetivos de vida. Vivi sempre a pensar no futuro e ansiosa com o que poderia realizar na vida. Um desses objetivos/sonhos era, de facto, puder realizar uma exposição de fotografia, que acabou por se realizar num futuro muito próximo [risos].

Estamos a vivenciar um momento bastante crítico e inconstante nas nossas vidas e, sendo este um período difícil para encontrar estabilidade profissional e uma ponte de equilíbrio emocional onde mora a ansiedade e o medo, decidi criar a exposição, que acabou por me trazer um pouco de alento, esperança e motivação.

Era algo que realmente estava a precisar na minha vida. Sinto-me mais preenchida, realizada e feliz. Sei perfeitamente que se trata de algo simples e humilde e que, aos olhos de muitos, pouco ou nada significa, mas, para mim, tem um enorme valor.

A boa turbulência cheia de adrenalina desde a escolha das fotografias que contassem uma história, à verificação da qualidade das mesmas, às opiniões e dicas de colegas de artes que me ajudaram a escolher o melhor material para a impressão das fotografias, à decoração que queria colocar - que era algo que eu queria obrigatoriamente que tivesse a ver comigo, obter algumas autorizações de alguns retratos (…) portanto, foi toda uma aventura de poucas burocracias, mas que foi gratificante passar por um processo de organização que nunca tinha experienciado antes.

Aprendi bastante com esta pequena caminhada abraçada em conjunto com o meu colega Nuno Ruas, um jovem artista com um grande talento no mundo da arte da fotografia e do cinema e que me ensinou bastante ao longo deste pequeno período. Apesar da exposição ser algo simples, deu o seu trabalho de construção até estar exposto nas paredes da casa que me acolheu de braços abertos.

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EMISSOR: Uma característica que se demonstra igual ao longo das suas fotografias é precisamente a escolha pelo preto e branco. Porquê?

BD: Sinto que o preto e branco é a melhor forma de expressar um sentimento, um retrato, uma expressão… e é o melhor contraste que existe, que consegue retratar exatamente aquilo que eu quero transmitir ao mundo.

É a melhor leitura que existe, na minha humilde opinião. Uma leitura que quebra o silêncio depois de uma breve pausa a saborear o que o olhar contempla.  Com nenhum elemento de contrastes vibrantes, torna-se nítido o ambiente envolvente na fotografia. Prende-nos com esses dois elementos: o preto e o branco agarra-nos. É como olhar para uma tela ou uma obra abstrata - sentamo-nos a olhar e ficamos mais de cinco minutos a tentar decifrar aquela obra e procuramos atribuir um significado sobreposto ao do artista que o concebeu.

 

EMISSOR: O que pretende captar com a sua fotografia?

BD: O meu mundo e aquilo que os meus olhos captam em determinado momento quando nada é planeado, simplesmente é o clique do momento e eu fotografo aquilo que vejo. O propósito da minha fotografia é congelar o momento que estou a viver em detrimento daquilo que me rodeia. Retratar o real, nu e cru e transmitir uma mensagem com essa lente despida que só quer enviar uma mensagem transparente daquilo que vejo.

 

EMISSOR: Considera que as suas fotografias podem mudar, de alguma forma, o pensamento de quem as vê? Ou, pelo menos, as faça refletir?

BD: Acredito piamente que sim. Mais ainda porque fazem mudar o meu próprio pensamento sempre que as vejo. Basta congelar numa cara de um indivíduo que desconheço por completo e que nunca uma palavra prenunciei que algo me faz refletir e sentir - seja uma ligeira empatia ou estranheza.

 

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EMISSOR: Sente que existe uma diferença sentimental entre a fotografia impressa e a fotografia digital?

BD: A fotografia “impressa”, das câmaras descartáveis ou de rolo, criou um valor sentimental enorme com a chegada do digital, gerando um sentimento de perda.

Eu cresci com as fotografias de família impressas enquanto estava sentada sozinha, a rir-me ou a falar para os meus botões sobre determinada fotografia, ou até mesmo chorar por nostalgia.

Cresci a ver fotografias com a família enquanto me contavam cada história que complementava cada fotografia que íamos vendo. Momentos repletos de amor, união e felicidade, com alguma tristeza à mistura sobre alguma pessoa ou história que cada álbum trazia consigo. Magia essa que não acontece com a fotografia digital. Não há o toque. Não há o sentimento mais ténue.

E claro que, comparar uma fotografia de uma câmara digital a uma de rolo também tem as suas características: como a facilidade que existe em fotografar, como apagar uma fotografia que não tenha ficado tão bem, por exemplo, o que não acontece com as analógicas.

 

EMISSOR: Existe alguma fotografia que mais a marcou de entre todas aquelas que fotografou?

BD: Existe uma em particular de um senhor já com uma certa idade que se encontrava no Shopping Via Catarina, nos inícios de 2018. Era um engraxador de sapatos e encontrava-se no piso das refeições. Estava sentado com uma mão sobre a cara. Um rosto acabado, pensativo em que eu imaginei que seria mais um dia de trabalho que contava com poucos “tostões”, enquanto “nós” saboreávamos uma bela refeição e se calhar com mais sorte do que aquele senhor, cujo nome ainda hoje desconheço.

Lembro-me de estar sentada à mesa com uns colegas da universidade. Estávamos todos contentes a conversar e eu não parava de observar aquele velho senhor cujo meu olhar decidiu cruzar. Aquele rosto traçado pelo tempo e aquele olhar triste perturbou-me de certa forma. Decidi pegar na câmara fotográfica e registar.

Lá criei o meu monólogo: “Um velho engraxador sem clientes enquanto nos vê a saborear bons pratos de comida”. Narrei uma pequena história. Era um mau dia de trabalho. 

Foi exatamente pela sua feição, o ar nostálgico, triste e pensativo dele que me fez estar colada durante algum tempo - sentimentos que gosto de transparecer nas minhas fotografias.

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