“Os livros têm esse poder de unir as pessoas”, afirma o booktuber Vasco Santos

Vasco Santos tem 23 anos, é natural do Porto e é booktuber. Além de expressar o seu carinho especial pelos livros no youtube, Vasco Santos é também desenhador de luz e realizador.

No âmbito do canal literário do youtube e da página de instagram de Vasco Santos, ambos muito ligados à área da literatura, o EMISSOR procurou saber o porquê de Vasco se dedicar à área da literatura e o que retira dessas experiências.

 

EMISSOR: O que é, para si, ser booktuber?

Vasco Santos (VS): Acho que, de forma generalizada, ser booktuber é partilhar publicamente, através da plataforma Youtube, a paixão pelos livros e pela literatura.

 

EMISSOR: No seu quotidiano, como se desenvolve a sua rotina?

VS: Admito que ser booktuber nunca afetou diretamente a minha rotina. Há momentos em que estou mais dedicado e consequentemente acabo por filmar mais, mas também há alturas em que não consigo produzir qualquer conteúdo, por isso, penso que não tenha que ver com as rotinas, mas com as fases criativas.

No que toca aos hábitos de leitura, não sou muito de rotinas, no entanto, devido ao silêncio, tenho sempre preferência de ler em horários mais tardios. Não gosto muito de pensar na leitura como um hábito, ou algo que pertença a uma rotina, gosto de pensar na leitura como um escape e, por isso, não costumo inseri-la no meu dia como parte essencial. Pego num livro quando me apetece, porque o quero ler, porque há alguma coisa naquela capa/narrativa que me chama a atenção. Tenho necessidade de me sentir atraído pela leitura ao invés de estar constantemente a “obrigar-me” a inseri-la nos meus hábitos.

 

Vasco Santos - Direitos Reservados

 

EMISSOR: Quando é que surgiu a ideia de partilhar as suas experiências literárias? 

VS: Pode parecer estranho, mas, deveu-se tudo às “Cinquenta Sombras de Grey”. Passo a explicar. Houve sempre alguma coisa que me atraiu para as sagas, lembro-me de ser mais novo e, num dos intervalos das aulas, no recreio, ouvir duas raparigas falarem sobre a adaptação cinematográfica do “Crepúsculo”. Escusado será dizer que, uma semana depois de ouvir essa conversa, estava sentado numa sala de cinema a assistir ao filme e, mais tarde, lembro-me de requisitar os livros da Stephanie Meyer na biblioteca da escola.

É engraçado porque o único que me recordo de ter lido foi o “Amanhecer”. Uns bons anos mais tarde, em 2015, com a febre d’ “As Cinquenta Sombras de Grey” e, depois de assistir ao filme, decidi ler o livro. Admito que fui à procura de respostas para as quais o filme levantava perguntas. E foi assim que descobri o booktube. No meio de tantos vídeos internacionais de discussão destes romances eróticos, começaram a aparecer os portugueses. Fui assistindo, depois subscrevi os canais, comecei a seguir, interessei-me por mais livros e acabou por surgir o “bichinho” de criar um canal literário. Era esquisito para todos os meus amigos haver um rapaz que se interessava por um livro cujo público alvo era feminino. A verdade é que queria entrar no Youtube, na comunidade literária portuguesa para romper com essa ideia. Livros são livros, não têm género, e se um homem quiser ler um livro maioritariamente indicado para mulheres, não deve ter receio de o fazer. Ou vice-versa. E depois porque foi “As Cinquenta Sombras de Grey” que me levaram, mais tarde, a interessar-me por Saramago e pelas obras lecionadas na escola.

A verdade é que, queria mostrar aos jovens (eu tinha 18 anos na altura), que a literatura não precisava de ter aquela conotação chata que nos “ensinam”, pode ser olhada como algo prazeroso e como atividade de lazer. Felizmente, quando partilhei com o meu professor da altura que estava a ler um romance erótico extremamente popular, cujo filme havia acabado de estrear, ele disse-me “Se estás a gostar lê. Lê-o até ao final”.

Ele podia ter-me dito imensas coisas sobre como aquele livro não poderia ser considerado literatura (entre muitas outras coisas que se dizem por aí), mas não, encorajou-me e, um mês depois estava a ler “Que Farei com este livro?” de José Saramago. Ler tornou-se parte essencial de mim, reencontrei-me com um livro que poderá ter uma maior ou menor qualidade literária (o que também pode ser discutível), mas sinto-me extremamente grato por esse reencontro e pelos professores que me foram mantendo envolvidos com a leitura. Tomara que todos fossem assim.

 

EMISSOR: Onde se inspira para criar novo conteúdo para o canal?

VS: Sou diretamente inspirado pelo conteúdo que consumo, tanto no Youtube como em outras redes sociais/plataformas digitais, mas essencialmente, tendo em conta que o meu conteúdo é literário, os livros que leio acabam por ter um papel fundamental nos meus conteúdos e tento diversificar mediante os livros que apresento. Ainda assim, por vezes, recorro a livros sobre criatividade e produção de conteúdos para me ajudarem ganhar novas perspetivas sobre o que quero produzir. Muitas vezes, esse tipo de livros acaba por ter uma influência direta sobre os conteúdos como foi o caso do “Criatividade” do Ed Catmull (Presidente da Pixar) e do “Profissão: Influencer” do Miguel Raposo.

 

EMISSOR: Partilha mais algum tipo de conteúdo além do tema "literatura"?

VS: No canal nunca arrisquei. Às vezes em lives tento sempre opinar sobre algumas séries, filmes e/ou música, mas costumo deixar essa parte para as histórias do instagram. Também é importante gerir os locais onde se abordam determinados temas então, tento sempre variar. Por diversas vezes, tentei implementar novos conteúdos no canal, mas os resultados nunca me satisfizeram então fui acabando por abandonar essas ideias. O formato “Não é em Direto”, uma série de conversas informais que desenvolvi com alguns influenciadores literários portugueses durante o primeiro confinamento devido à CoViD-19, acabou por surgir dessa necessidade de falar sobre outras coisas para além de livros. Temos todos em comum a literatura, mas, ninguém é feito só de livros.

 

Vasco Santos - Direitos Reservados

 

EMISSOR: Ao partilhar o seu conteúdo, sente que existe uma boa colaboração consigo por parte dos seus subscritores?

VS: Atualmente, as redes sociais ajudam a manter um contacto mais próximo e direto do que os comentários do Youtube. As histórias do instagram também acabam por ser parte ativa na escolha dos conteúdos. Por vezes coloco uma caixa para que as pessoas deixem sugestões de temas, ou conteúdos dos quais gostavam que eu falasse.

 

EMISSOR: Em Portugal, as editoras literárias existentes colaboram com o seu canal? De que forma?

VS: Algumas sim. De diversas formas, vai dependendo do livro em questão. Essas colaborações podem variar mediante a estratégia que a editora tem para a divulgação de um determinado título, e depois, mediante os objetivos do canal para os conteúdos relacionados com o mesmo, vamos discutindo o que seria mais interessante desenvolver. 

 

EMISSOR: De que forma o canal contribui para a sua vida pessoal?

VS: Será inevitável dizer que teve interferência direta no meu círculo de amizades. Houveram muitas pessoas que entraram na minha vida devido a esta experiência da partilha da literatura e mais do que a própria partilha, isso é, definitivamente o melhor aspeto de ter um canal Youtube, mas principalmente um canal literário. Os livros têm esse poder de unir/reunir as pessoas.

 

EMISSOR: Com que finalidade criou o seu bookstagram?

VS: O bookstagram acaba por ser uma extensão direta do canal. As stories acabam por ser uma ferramenta de proximidade. Gosto sempre de partilhar uma fotografia com o livro que vou ler, ou estou a ler, ou terminei de ler, como se estivesse a criar um álbum fotográfico das minhas leituras. 

 

Canal do youtube de Vasco Santos - Direitos Reservados

 

EMISSOR: Possui mais algum projeto além do youtube e do instagram?

VS: Eu sou realizador por isso, felizmente, há sempre bastantes projetos paralelos ao Youtube (talvez seja por isso que passo períodos de tempo tão longos sem ler e sem produzir conteúdos). Infelizmente, a pandemia veio dificultar a minha vida nesse campo, ainda assim, consegui estrear a minha curta-metragem de estreia “CAIR”, mas espero, este ano, conseguir apresentar dois dos projetos que ficaram pendentes em dois mil e vinte. 

 

EMISSOR: Quais as as expectativas que possui relativamente ao futuro do canal?

VS: Gostava de chegar aos jovens, gostava que percebessem que não faz mal ler a coleção do Geronimo Stilton (lembro-me desta coleção, não só porque li muitos livros, mas por terem um tamanho de letra enorme e serem repletos de ilustrações, lêem-se num ápice, e usava-os sempre para as apresentações de leitura das aulas de português — os meus colegas ficavam sempre muito espantados com a quantidade de livros que eu lia, só que, as ilustrações e a letra é que eram enormes e faziam parecer que eu lia imenso), ou qualquer outra mais infantil que gostem, seja em que idade for. O essencial é lerem alguma coisa que seja agradável para, a partir daí, poderem desenvolver alguma relação com as palavras, a literatura e os livros. Sobre os projetos futuros do canal, adianto que está a ser pré-produzida a segunda temporada do Não é em Direto e um outro projeto com novos autores.

 

Vasco Santos - Direitos Reservados

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 “Os livros têm esse poder de unir as pessoas”, afirma o booktuber Vasco Santos

“Os livros têm esse poder de unir as pessoas”, afirma o booktuber Vasco Santos

Vasco Santos tem 23 anos, é natural do Porto e é booktuber. Além de expressar o seu carinho especial pelos livros no youtube, Vasco Santos é também desenhador de luz e realizador.

No âmbito do canal literário do youtube e da página de instagram de Vasco Santos, ambos muito ligados à área da literatura, o EMISSOR procurou saber o porquê de Vasco se dedicar à área da literatura e o que retira dessas experiências.

 

EMISSOR: O que é, para si, ser booktuber?

Vasco Santos (VS): Acho que, de forma generalizada, ser booktuber é partilhar publicamente, através da plataforma Youtube, a paixão pelos livros e pela literatura.

 

EMISSOR: No seu quotidiano, como se desenvolve a sua rotina?

VS: Admito que ser booktuber nunca afetou diretamente a minha rotina. Há momentos em que estou mais dedicado e consequentemente acabo por filmar mais, mas também há alturas em que não consigo produzir qualquer conteúdo, por isso, penso que não tenha que ver com as rotinas, mas com as fases criativas.

No que toca aos hábitos de leitura, não sou muito de rotinas, no entanto, devido ao silêncio, tenho sempre preferência de ler em horários mais tardios. Não gosto muito de pensar na leitura como um hábito, ou algo que pertença a uma rotina, gosto de pensar na leitura como um escape e, por isso, não costumo inseri-la no meu dia como parte essencial. Pego num livro quando me apetece, porque o quero ler, porque há alguma coisa naquela capa/narrativa que me chama a atenção. Tenho necessidade de me sentir atraído pela leitura ao invés de estar constantemente a “obrigar-me” a inseri-la nos meus hábitos.

 

Vasco Santos - Direitos Reservados

 

EMISSOR: Quando é que surgiu a ideia de partilhar as suas experiências literárias? 

VS: Pode parecer estranho, mas, deveu-se tudo às “Cinquenta Sombras de Grey”. Passo a explicar. Houve sempre alguma coisa que me atraiu para as sagas, lembro-me de ser mais novo e, num dos intervalos das aulas, no recreio, ouvir duas raparigas falarem sobre a adaptação cinematográfica do “Crepúsculo”. Escusado será dizer que, uma semana depois de ouvir essa conversa, estava sentado numa sala de cinema a assistir ao filme e, mais tarde, lembro-me de requisitar os livros da Stephanie Meyer na biblioteca da escola.

É engraçado porque o único que me recordo de ter lido foi o “Amanhecer”. Uns bons anos mais tarde, em 2015, com a febre d’ “As Cinquenta Sombras de Grey” e, depois de assistir ao filme, decidi ler o livro. Admito que fui à procura de respostas para as quais o filme levantava perguntas. E foi assim que descobri o booktube. No meio de tantos vídeos internacionais de discussão destes romances eróticos, começaram a aparecer os portugueses. Fui assistindo, depois subscrevi os canais, comecei a seguir, interessei-me por mais livros e acabou por surgir o “bichinho” de criar um canal literário. Era esquisito para todos os meus amigos haver um rapaz que se interessava por um livro cujo público alvo era feminino. A verdade é que queria entrar no Youtube, na comunidade literária portuguesa para romper com essa ideia. Livros são livros, não têm género, e se um homem quiser ler um livro maioritariamente indicado para mulheres, não deve ter receio de o fazer. Ou vice-versa. E depois porque foi “As Cinquenta Sombras de Grey” que me levaram, mais tarde, a interessar-me por Saramago e pelas obras lecionadas na escola.

A verdade é que, queria mostrar aos jovens (eu tinha 18 anos na altura), que a literatura não precisava de ter aquela conotação chata que nos “ensinam”, pode ser olhada como algo prazeroso e como atividade de lazer. Felizmente, quando partilhei com o meu professor da altura que estava a ler um romance erótico extremamente popular, cujo filme havia acabado de estrear, ele disse-me “Se estás a gostar lê. Lê-o até ao final”.

Ele podia ter-me dito imensas coisas sobre como aquele livro não poderia ser considerado literatura (entre muitas outras coisas que se dizem por aí), mas não, encorajou-me e, um mês depois estava a ler “Que Farei com este livro?” de José Saramago. Ler tornou-se parte essencial de mim, reencontrei-me com um livro que poderá ter uma maior ou menor qualidade literária (o que também pode ser discutível), mas sinto-me extremamente grato por esse reencontro e pelos professores que me foram mantendo envolvidos com a leitura. Tomara que todos fossem assim.

 

EMISSOR: Onde se inspira para criar novo conteúdo para o canal?

VS: Sou diretamente inspirado pelo conteúdo que consumo, tanto no Youtube como em outras redes sociais/plataformas digitais, mas essencialmente, tendo em conta que o meu conteúdo é literário, os livros que leio acabam por ter um papel fundamental nos meus conteúdos e tento diversificar mediante os livros que apresento. Ainda assim, por vezes, recorro a livros sobre criatividade e produção de conteúdos para me ajudarem ganhar novas perspetivas sobre o que quero produzir. Muitas vezes, esse tipo de livros acaba por ter uma influência direta sobre os conteúdos como foi o caso do “Criatividade” do Ed Catmull (Presidente da Pixar) e do “Profissão: Influencer” do Miguel Raposo.

 

EMISSOR: Partilha mais algum tipo de conteúdo além do tema "literatura"?

VS: No canal nunca arrisquei. Às vezes em lives tento sempre opinar sobre algumas séries, filmes e/ou música, mas costumo deixar essa parte para as histórias do instagram. Também é importante gerir os locais onde se abordam determinados temas então, tento sempre variar. Por diversas vezes, tentei implementar novos conteúdos no canal, mas os resultados nunca me satisfizeram então fui acabando por abandonar essas ideias. O formato “Não é em Direto”, uma série de conversas informais que desenvolvi com alguns influenciadores literários portugueses durante o primeiro confinamento devido à CoViD-19, acabou por surgir dessa necessidade de falar sobre outras coisas para além de livros. Temos todos em comum a literatura, mas, ninguém é feito só de livros.

 

Vasco Santos - Direitos Reservados

 

EMISSOR: Ao partilhar o seu conteúdo, sente que existe uma boa colaboração consigo por parte dos seus subscritores?

VS: Atualmente, as redes sociais ajudam a manter um contacto mais próximo e direto do que os comentários do Youtube. As histórias do instagram também acabam por ser parte ativa na escolha dos conteúdos. Por vezes coloco uma caixa para que as pessoas deixem sugestões de temas, ou conteúdos dos quais gostavam que eu falasse.

 

EMISSOR: Em Portugal, as editoras literárias existentes colaboram com o seu canal? De que forma?

VS: Algumas sim. De diversas formas, vai dependendo do livro em questão. Essas colaborações podem variar mediante a estratégia que a editora tem para a divulgação de um determinado título, e depois, mediante os objetivos do canal para os conteúdos relacionados com o mesmo, vamos discutindo o que seria mais interessante desenvolver. 

 

EMISSOR: De que forma o canal contribui para a sua vida pessoal?

VS: Será inevitável dizer que teve interferência direta no meu círculo de amizades. Houveram muitas pessoas que entraram na minha vida devido a esta experiência da partilha da literatura e mais do que a própria partilha, isso é, definitivamente o melhor aspeto de ter um canal Youtube, mas principalmente um canal literário. Os livros têm esse poder de unir/reunir as pessoas.

 

EMISSOR: Com que finalidade criou o seu bookstagram?

VS: O bookstagram acaba por ser uma extensão direta do canal. As stories acabam por ser uma ferramenta de proximidade. Gosto sempre de partilhar uma fotografia com o livro que vou ler, ou estou a ler, ou terminei de ler, como se estivesse a criar um álbum fotográfico das minhas leituras. 

 

Canal do youtube de Vasco Santos - Direitos Reservados

 

EMISSOR: Possui mais algum projeto além do youtube e do instagram?

VS: Eu sou realizador por isso, felizmente, há sempre bastantes projetos paralelos ao Youtube (talvez seja por isso que passo períodos de tempo tão longos sem ler e sem produzir conteúdos). Infelizmente, a pandemia veio dificultar a minha vida nesse campo, ainda assim, consegui estrear a minha curta-metragem de estreia “CAIR”, mas espero, este ano, conseguir apresentar dois dos projetos que ficaram pendentes em dois mil e vinte. 

 

EMISSOR: Quais as as expectativas que possui relativamente ao futuro do canal?

VS: Gostava de chegar aos jovens, gostava que percebessem que não faz mal ler a coleção do Geronimo Stilton (lembro-me desta coleção, não só porque li muitos livros, mas por terem um tamanho de letra enorme e serem repletos de ilustrações, lêem-se num ápice, e usava-os sempre para as apresentações de leitura das aulas de português — os meus colegas ficavam sempre muito espantados com a quantidade de livros que eu lia, só que, as ilustrações e a letra é que eram enormes e faziam parecer que eu lia imenso), ou qualquer outra mais infantil que gostem, seja em que idade for. O essencial é lerem alguma coisa que seja agradável para, a partir daí, poderem desenvolver alguma relação com as palavras, a literatura e os livros. Sobre os projetos futuros do canal, adianto que está a ser pré-produzida a segunda temporada do Não é em Direto e um outro projeto com novos autores.

 

Vasco Santos - Direitos Reservados

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