Os setores da restauração e da cultura fazem parte dos mais carenciados em época pandémica, não só devido à falta de apoios, como também à impossibilidade de trabalhar normalmente. Já os hospitais queixam-se de “falta de espaço” e “recursos humanos” para enfrentar a nova vaga.

O país renovou o seu Estado de Emergência no dia 13 de janeiro e, até ao momento, foram estabelecidas e adotadas medidas capazes de responder, de acordo com o Diário da República, “à movimentação ocorrida nos últimos dias, que embora tenha sido menor não é suficiente para fazer face ao estado atual da pandemia da doença COVID-19”.

De acordo com Cidália Ferreira, enfermeira no Centro de Saúde de Vilã Meã e Amarante, “as festas de Natal e Ano Novo contribuíram sem dúvida para o aumento de casos que temos vindo a sentir nos últimos dias”, indo de encontro à opinião de Marcela Sousa, enfermeira no Hospital de Penafiel, que afirma estarmos a “sofrer o efeito das festas”, uma vez que “as pessoas facilitaram muito e, em alguns casos, foram irresponsáveis”.

Além da questão das festas, Marcela Sousa adianta que a “disseminação da nova variante inglesa provocou um crescimento exponencial alargado dos casos”.

A par da situação difícil que o país atravessa, Cidália refere que o seu dia a dia enquanto enfermeira é “sempre de incertezas”, uma vez que os horários “são constantemente mudados porque de um momento para o outro temos um elemento da equipa infetado ou tem que estar em isolamento profilático”. A enfermeira refere ainda que esta experiência “não é fácil, tanto ao nível pessoal, familiar e profissional”, sendo que, “temos sempre receio de ser infetados e vir para casa infetar a família”.

Tal como Cidália Ferreira, Marcela Sousa afirma que o “dia a dia na linha da frente, acaba por ser uma nova ‘normalidade’”, sendo que, foi necessário criar o hábito de utilização de trabalho com equipamentos de proteção, assim como a criação de “mecanismos de defesa para lidar com o medo e a culpa de infetar a família”. Além disso, a enfermeira do Hospital de Penafiel adianta que o que considera mais grave, foi “ficarmos mais frios e distantes dos doentes”, acrescentando que acaba por haver uma desumanização cada vez maior, referindo que “esta forma de trabalho, preocupa-me, porque nós tratamos pessoas, não números”.

 

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Em condições como estas, “toda a equipa de saúde está exausta”, esclarece Cidália Ferreira e afirma que “com estes aumentos exponenciais de casos, ainda nos deixa mais desmotivados”. Para a enfermeira do Centro de Saúde de Vilã Meã e Amarante, as contratações de pessoal de saúde têm sido recentes, porém “muitos sem grande experiência” e, por isso, as medidas passam “sem dúvida pelo confinamento total”, uma vez que “as pessoas têm de perceber que o vírus é real e está a circular entre todos nós, por isso, a mudança dos comportamentos é fulcral para poder conter a propagação descontrolada do vírus”.

Já Marcela Sousa adianta que, no Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa (CHTS), em Penafiel, “a chave é acima de tudo, planeamento e antecipação” e é urgente “líderes com capacidade de visão, que planifiquem estratégias a curto e a médio prazo”. Em declarações ao EMISSOR, Marcela Sousa narra ainda que “ter o controlo da situação e proteger os profissionais dos serviços é essencial, para que haja um clima de confiança que aumente a produtividade das pessoas”.

A par destas declarações, a enfermeira refere ainda que “os profissionais que estão na chamada ‘linha da frente’, não querem sentir que são ‘carne para canhão’” e, por isso, “fazer com que isto não aconteça, passa por mobilizar recursos de forma inteligente”, explica a enfermeira Marcela Sousa.

 

Medidas que prejudicam os restaurantes e a cultura

Nas últimas semanas, o comércio local e a restauração, têm-se manifestado contra as medidas estipuladas pelo Governo, principalmente no que toca ao fecho dos estabelecimentos e a proibição da venda ao postigo. Medidas que limitaram estes dois setores e que, na opinião de Adérito Teixeira, gerente do restaurante “Tasquinha do d’erto”, o setor da restauração está entre “encerramentos e restrições desde março de 2020, mas apoios prometidos que se justifiquem, para já não aconteceram, e mais lamentável são os empresários que já encerraram e continuarão a encerrar se não colocarem no ‘terreno’ apoios imediatos e musculados para travar esta avalanche de insolvências”.

No caso de Adérito Teixeira, que abriu o seu restaurante em tempo pandémico, a 4 de outubro de 2020, o próprio desacreditava “em algum tipo de confinamento a curto prazo, o que infelizmente está a acontecer” e, nessa fase, “resta-nos cumprir o disposto governamental a fazer umas ofertas aos nossos clientes para o nosso take away funcione, de forma a garantir a manutenção da nossa casa”, afirma.

Na opinião de Adérito Teixeira, o “confinamento é um mal necessário devido aos números assustadores da pandemia, contudo, acho que os nossos Dirigentes estiveram e estão enganados em relação à restauração” e afirma que os “restaurantes e afins, são desinfetados regularmente desde a entrada dos clientes (mãos desinfetadas e com máscara) às mesas, cadeiras, utensílios, balcões, cozinha, instalações sanitárias e todo o espaço aqui não descrito e, mesmo dessa forma, acham que é um risco acrescido de propagação de vírus”.

 

Fotografia de EMISSOR

 

A par da questão da propagação do vírus, o dono da “Tasquinha do d’erto” refere ainda que “exigir o encerramento aos fins de semana às 13h00, na restauração, é a nosso ver uma medida completamente exagerada e absurda, quando “afunilaram” as pessoas para os super e hipermercados de manhã e onde se via claramente as pessoas juntas em outros locais”, refere o gerente.

Por outro lado, João Delgado Lourenço, ator de teatro, refere que “a tentativa de dar a volta a esta situação é bastante difícil”, uma vez que o próprio não faz parte de nenhuma estrutura e, por isso, juntamente com alguns colegas, está a tentar “criar alguns projetos artísticos”. O ator adianta que, em março, estará “na casa da música como narrador de um concerto de Beethoven” e, entre maio e junho, estará “a dar aulas de teatro”, os únicos dois trabalhos que refere ter nos próximos seis meses.

João Delgado Lourenço adianta que, a dificuldade “não está em criar um objeto artístico, a real dificuldade é conseguir apoios ou fundos – muitas vezes estas criações acabam por não ter retorno financeiro” e adianta que, de momento, “não me resta muito além de esperar que a cultura seja ‘desconfinada’ para poder ter melhores perspetivas”.

A par de todas as dificuldades, João Delgado Lourenço espera o apoio “que a Ministra da Cultura prometeu chegue mesmo aos profissionais da cultura” e adianta que “estamos a falar de um apoio ínfimo para as necessidades, mas seria uma ajuda preciosa”. A partir desta ideia, o ator adianta uma analogia que faz, em conjunto com os fogos de Portugal, referindo que “não basta atuar em emergência” e que “não basta dar meios aos bombeiros no verão, aquando os incêndios, é preciso ter políticas anuais de fundo que vão evitar estes incêndios periódicos”. João Delgado Lourenço alerta para a pandemia “que só colocou a nu a situação do setor, é preciso deixar de apagar ‘fogos’ e apoiar o setor a fundo”, realça.

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Tendo em conta as medidas, o ator refere entender que “estamos numa situação catastrófica”, porém, não entende as exceções, justificando que “nunca houve nenhum foco associado a eventos culturais” e que “todos os espetáculos têm medidas fortíssimas de segurança e higiene”. João Delgado Lourenço refere mesmo que tem ido “sistematicamente ao teatro nos últimos meses, e a cada espectador é medida a temperatura, exigido que desinfete as mãos com álcool, e a lotação passou para metade, com os lugares indisponíveis inutilizados” e alega que “como todos sabemos, há tantos outros setores que não seguem tão escrupulosamente estas medidas”.

Numa mensagem dirigia a quem impôs estas medidas, Adérito Teixeira afirma que “a restauração não tem culpa da existência do vírus, não nos vemos responsabilizados pela propagação do vírus, não somos fonte de contágio de vírus, tomamos todas as medidas necessárias e recomendadas pela DGS, portanto, queremos trabalhar; não nos deixem morrer”.

No mesmo âmbito, João Delgado Lourenço afirma a Cultura como segura e adianta que “não é a ver um espetáculo ou um concerto que vamos correr riscos” e acrescenta que está na altura do Governo “olhar para a cultura como um setor essencial, com medidas políticas que possibilitem aos profissionais desta área terem vidas condignas; se quiser medidas concretas, está na altura de a cultura ter 1% do orçamento”, conclui.

A partir do ponto de vista das enfermeiras, Cidália Ferreira afirma que o “confinamento total, neste momento, é sem dúvida a melhor opção para tentar travar a propagação do vírus” e “evitar o contacto social é a medida mais eficaz para conseguir reverter a taxa de transmissão do vírus”. Com uma opinião semelhante, Marcela Sousa preocupa-se com a “grande falta de vagas para doentes Covid e não Covid” e, por isso, “os doentes acumulam-se por todo o lado no serviço de urgência, pondo em risco a segurança dos cuidados e condicionando a assistência dos outros doentes”.

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A enfermeira pertencente ao CHTS expõe que “à falta de espaço, acresce a falta de recursos humanos” e que “não adianta ter camas, sem profissionais para tratar dos doentes”. Marcela Sousa explica que “a população tem que ter noção que a capacidade assistencial pode estar em causa, seja doente Covid ou não; os recursos não são elásticos, e as pessoas têm que ser informadas, que o seu comportamento individual é muito importante para controlar a situação”. Por fim, a enfermeira apela a que o confinamento seja encarado de forma séria e que a mensagem que se transmite deve “ser clara e transmitir a gravidade da situação”, uma vez que “quando existem muitas exceções, há sempre a tentação de contornar as regras” e o “fechar as escolas, também irá passar esta mensagem de que estamos no limite e fará com que as pessoas circulem menos”.

 

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