Francisco Ferreira explica que, tal como na Páscoa e o Natal de 2020, a família volta a não poder juntar-se novamente, o que provoca um sentimento de tristeza e saudade, não só por ser uma pessoa ligada à religião, como também à família. Apesar dos tempos que vivemos, José Augusto Ferreira, pároco de Paços de Ferreira, explica que a igreja teve de se readaptar através da igreja doméstica.

Entre a saudade e a tristeza, Francisco Ferreira narra “na minha terra, no Natal usa-se não só a família estar junta, mas visitarem-se as famílias umas às outras… e agora? E este ano como é? Como é que vai ser? Fechados? Fechados com toda a razão, porque o perigo é grande”.

Por outro lado, o pároco de Paços de Ferreira, José Augusto Ferreira, explica que a Páscoa é o centro da vida dos cristãos e, não podendo ser celebrada através do compasso e da junção das famílias, houve readaptações que procuraram com que os cristãos continuassem a celebrar a sua fé ainda que em tempos difíceis e diferentes como aqueles que vivemos atualmente.

 

A Páscoa em tempos de pandemia pelo olhar de um cristão

Residente em Lordelo, Francisco Ferreira, ou como é mais conhecido, Professor Ferreira, tem 85 anos. É uma pessoa muito ligada à religião e acredita que a “a pandemia estragou tudo” uma vez que, habitualmente, de acordo com o próprio, “todas as famílias se juntam na Páscoa, religiosas e não religiosas, a Páscoa é a festa da família”.

 

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Em conversa, o professor Ferreira recorda a última Páscoa, bem como o último Natal, e sente tristeza em dizer que, em ambas as alturas, esteve com os filhos e netos, mas à distância, e refere sentir saudades de brincar com os netos. O próprio conta “passei o Natal, eu e a minha esposa, aqui sozinhos”.

“Culpa da pandemia, culpa da situação do coronavírus, culpa do medo que incutiu em toda a gente, como em mim que gosto tanto de ir a Trás dos Montes, e vai fazer dois anos que lá não vou”, explica. Trás dos Montes é a terra Natal do professor Ferreira, lugar que visita várias vezes para se encontrar com a restante família. “Isto mexeu com a Páscoa de toda a gente, não é só para aqueles que frequentam a igreja, não, não, é para todos. Porque o assunto de casa, de união, aquele que estamos habituados a viver em família, na alegria da família, na junção da família”, conta.

“Uma pessoa como eu com 85 anos, apanha o coronavírus e vou de vela. Tenho que ter medo.”

Entre as experiências que passou durante o tempo pandémico, conta que viu o bisneto pela primeira vez, com um ano e pouco, vindo de Moçambique com a mãe, e que “ficaram ali fora, cheguei à porta e vi-os de longe. Esta tristeza atinge-nos a todos”.

“Esta época da vida da humanidade que não atingiu só Portugal, atingiu todo mundo, continua a atingir e não sabemos até quando. Foi uma infelicidade para todos e parece que foi um corte na sociedade, nas relações pessoais, afetou tudo… A Páscoa vai ser uma Páscoa triste”

O professor Ferreira costuma receber o compasso na própria casa e, como é muito ligado à religião e sendo possuidor de uma fé inabalável, considera que este ano, bem como no ano passado, as freguesias poderão passar a figura de Nossa Senhora como comemorativa da época de Páscoa e que, se assim for, “Graças a Deus, a vinda e a passagem é uma alegria para quem esteja na janela, a ver, é alguma coisa, mas é tão pouquinho… comparando com o que podia ser”.

“Quem tem fé, tem fé profunda. Quem acredita num Ser superior que domina a face da Terra, que temos na base dele a criação de tudo. A fé dessa pessoa não se perde.”

 

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Tendo em conta a pandemia e a proibição da realização das eucaristias de forma presencial, o professor Ferreira acredita que, muitas pessoas “deixarão de ir”, e exemplifica que “aquelas pessoas que mais levianamente iam, porque os outros também vão, eu também vou, e a gente encontra-se e até parece mal não ser da igreja e tal. Muitas dessas pessoas que deixaram de ir, agora, retomar outra vez…”, dando a entender que a igreja irá sentir uma menor afluência.

“A realidade é esta, o homem é um conjunto de hábitos, aquele que é regado, que tem força, que tem vontade, não deixa de voltar”

“O compasso fazia parte integral da Páscoa. A visita pascal às famílias, onde as famílias esperavam com alegria a vinda daquele grupinho a casa”, explica o professor e recorda-se de quando o próprio fazia parte do compasso, visitando também ele as casas das famílias em Lordelo, “todas as famílias esperavam a chegada e era uma alegria para a família”.

“Vinham aqui a minha casa, cantávamos, portanto para as pessoas isso foi uma falta grande que se inclui em todas aquelas que dizem respeito a contacto entre pessoas”

 

A Páscoa em tempos de pandemia pelo olhar de um padre

O Padre José Augusto Ribeiro Ferreira tem 44 anos e está, neste momento, ao serviço pastoral das paróquias de Lamoso, Meixomil, Penamaior e Paços de Ferreira. Na opinião de José Ferreira no que diz respeito à igreja face à situação pandémica em que se encontra Portugal, “o mais difícil é conseguirem (igreja e cristãos) encarar este tempo e viverem com a dignidade que ele tem, porque as pessoas habituaram-se e bem, a viver a páscoa de uma forma celebrativa, portanto à volta da mesa do altar e, infelizmente, isso não é permitido”, acrescentando que, no que diz respeito aos padres e à não celebração desta época, torna-se difícil.

José Augusto Ferreira evidencia que a “Páscoa é o centro da vida dos cristãos” e que, de momento, as pessoas precisam “de viver com celebridade, e não quer dizer que não o vamos fazer, vamos fazê-lo de uma forma diferente, agora espero eu, e esperamos todos, que o domingo de Páscoa seja o alento que faltava não só à igreja, mas também aos cristãos neste tempo difícil de pandemia”, confere.

 

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Face à situação atual e à questão da não junção dos familiares em tempo de pandemia, o padre José Augusto Ferreira considera que “às vezes a ausência faz-nos perceber o quanto a presença nos faz falta. Talvez isto sirva para nós valorizarmos outros momentos em que estivemos juntos e não lhe demos tanto valor. Portanto, naturalmente não é a mesma coisa, vai faltar-nos esse calor familiar, vai faltar-nos essa alegria do compasso de casa em casa, que reúne as famílias, não só as famílias de sangue, mas também os vizinhos e tudo aquilo que circula à volta do compasso”, explica.

“A ausência com toda a certeza nos vai fazer perceber o quanto é importante. Porque às vezes só valorizamos o que não temos”

Uma vez que o compasso, no presente ano, tal como no ano passado, não se dirigiu às casas dos cristãos, o padre José Augusto Ferreira diz dirigir-se a todos quando pede, nomeadamente aos pais para que expliquem aos filhos, a diferença entre “a paixão, a morte a ressurreição de Jesus Cristo. Convém que os pais tenham uma conversa com os filhos, dizendo que o compasso vinha a casa porque era a alegria e a esperança de Jesus Cristo ressuscitando, este ano não vem presencialmente, mas está aqui connosco e nós celebramos o dia de Páscoa e damos-lhe uma razão. Hoje em dia eu acho que é cada vez mais importante e talvez a pandemia nos tenha ensinado isso, nos tenha ensinado a dar valor às coisas que têm valor, a todos os gestos simples…”, completa.

Neste sentido, e para que a igreja e os cristãos pudessem celebrar a própria fé, o pároco explica que a igreja procurou “que cada casa fosse uma ‘igreja doméstica’, ou seja, não podendo as crianças virem à catequese presencial, não podendo os pais virem à igreja celebrarem e viverem a sua fé, procuramos fazer com que chegasse a casa de todas as pessoas, orações para cada domingo, para a bênção da mesa quando estão juntos. Procuramos fazer com que a igreja de cada um fosse a sua própria casa”, conclui. 

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