"Quase todos os dias sou marcado" - entrevista com o artista que deu vida ao primeiro mural público de Paços de Ferreira

José Mendonça tem 29 anos e é tatuador, além disso, é ainda artista e não se limita à sua profissão, procurando explorar mais a área com a qual se identifica: o desenho.

O artista é natural de Paços de Ferreira, lugar onde, recentemente, teve a honra de ser convidado a desenhar sobre o primeiro mural do concelho. Tendo em conta a paixão de José, o EMISSOR procurou descobrir mais sobre o próprio e entender de que formas o artista se expressa através da arte do desenho.

EMISSOR: Quando começaram a surgir os primeiros projetos?

JM: Desde muito novo, eu gostava de fazer pintura, eu não diria projetos, porque acho que nunca foi uma coisa que eu dissesse “isto é um projeto”. Eu ia fazendo coisas… Depois tornou-se mais oficial quando comecei a tatuar e a desenvolver projetos mais sérios, aí sim, diria que são projetos. Agora, o primeiro projeto eu não consigo dizer qual foi, porque foi um processo.

 

EMISSOR: Considera que a sua profissão enquanto tatuador é capaz de refletir a sua paixão pelo desenho?

JM: Sim, define a minha paixão pelo desenho, mas eu acho que a minha profissão não me define como pessoa. Eu sou tatuador, mas eu não gosto de ser só isso, porque estaria limitado só a “tatoos” e eu não faço só “tatoos”. Eu arranjei quase uma forma de fazer o que gosto e conseguir levar a minha vida.

 

José Mendonça - Direitos Reservados

 

EMISSOR: Existe algum desenho ou tatuagem que tenha feito que o marcou até hoje?

JM: Tem pessoas que me marcam, há clientes que me marcam sem dúvida. Agora, uma tatuagem em específico? Não há uma em específico. É bom estar nesta profissão porque conheço pessoas e consigo saber da história delas, histórias pessoais e íntimas e acaba por ser interessante. Eu sinto-me grato por conhecer muitas pessoas e não consigo dar realce aqui a uma história, porque quase todos os dias sou marcado.

 

EMISSOR: Qual o projeto que mais lhe deu prazer alcançar?

JM: Abrir o estúdio foi um marco importante porque consegui tornar uma coisa que eu gosto de fazer em profissão, e tudo o que tem acontecido até agora tem me marcado. Mas sim, o estúdio foi importante.

 

EMISSOR: O que é que contribuiu mais para ser artista? Foram os estudos ou a experiência pessoal?

JM: Foi um bocadinho de tudo, acho que foi uma mistura. Eu dou valor aos estudos e ao ensino académico, mas acho que não é o mais importante, acho que a pessoa, com as vivências, consegue aprender mais e a interessar-se mais pelas coisas que gosta e aprender sobre elas do que propriamente o ensino académico. Eu aprendi coisas importantes na escola, obviamente, mas sinto que sou um bocadinho autodidata, porque também aprendi muito sozinho e com os meus erros. Eu estudei em Paços de Ferreira, Artes Visuais, e na altura não dava muito valor à aprendizagem académica e na altura comecei por mim, a procurar formas de aprender coisas e ser autodidata. Mas acho que foi com isso que aprendi mais, com as minhas experiências e com as tentativas que tive ao longo da vida.

 

Tatuagem da autoria de José Mendonça - Direitos Reservados

 

EMISSOR: Qual o significado que o desenho tem para si?

JM: Eu sou uma pessoa que se expressa melhor através do desenho do que com palavras, ou por escrito, ou de qualquer outra forma. Por isso, eu acho que o desenho é quase o meu refúgio para eu conseguir expressar coisas que não são ditas através de palavras, são imagens.

 

EMISSOR: Enquanto artista, quais foram as suas maiores influências?

JM: Eu tenho algumas influências, mas eu gosto sobretudo dos artistas surrealistas, como Dali e Margritte. Mas acho que sou uma pessoa influenciada por muita coisa. Por exemplo, posso estar a ouvi uma música e isso influenciar-me e, às vezes, a música não tem muito a ver com o meu estilo. Como posso ver uma imagem que não tem nada a ver pode influenciar-me no desenho. Eu gosto muito do surrealismo, mas gosto sobretudo de coisas que marcam pela diferença.

 

Arte de José Mendonça - Direitos Reservados

 

EMISSOR: Recentemente foi convidado para a elaboração do primeiro mural público, já inaugurado, na cidade de Paços de Ferreira. Como foi, para si, ter feito parte desta experiência?

JM: Inicialmente isso foi no seguimento de várias exposições que houveram e eu costumava expor sempre para Paços de Ferreira, ou seja, quando havia exposições, eu costumava expor sempre e fazer a minha exposição. Mas, desta vez, eles pediram-me um mural, eu tinha feito alguns, mas eu não tenho sequer um portfólio de um mural. Eu fui fazendo, haviam pessoas que me pediam e eu fazia.

Na altura, eles tinham-me pedido um mural mas era noutro sítio, e depois mudaram de sítio e, então, isso não aconteceu bem no timing das exposições, ou seja, parece que foi uma coisa feita à parte.

Mas não, foi no seguimento dessas exposições e convidaram-me, eu senti-me mesmo agradecido porque nunca tinha feito algo tão grande e tão oficial e sim, gostei muito, e agradeço mesmo a oportunidade.

 

EMISSOR: Qual o significado do desenho expresso no mural?

JM: Aquilo é um exercício muito básico. Aquilo nós aprendemos a fazer em Educação Visual e Tecnológica (EVT), é um exercício que te ajuda a perceber que com um conjunto de linhas consegues obter um volume. Ou seja, uma linha é uma coisa bidimensional, sem perspetiva e sem dimensão, mas, em conjunto, conseguem formar, uma forma(s) ou uma textura.

Eu peguei nisso por ser um exercício mesmo simples e o que eu fiz foi descontextualizar isso, porque isso é um exercício de EVT do quinto ou do sexto ano, e colocar isso num muro. No fundo a arte é isso, se descontextualizares alguma coisa, ela passa a ter um valor artístico e o meu objetivo foi esse. Foi pegar numa coisa simples, que eu acho que é fácil perceber, e transportar isso para o muro.

 

Direitos Reservados

 

EMISSOR: Que conselho ofereceria àqueles que procuram seguir o ramo da arte?

JM: Acho que tem que haver muita persistência, dedicação e paixão sobretudo, porque, é verdade que podes nascer com um talento, por exemplo, de desenhar, ou cantar, ou o que for. Mas acho que o talento não basta, tem que haver prática e tem que haver um gosto muito grande por aquilo que fazes, para conseguir aumentar o teu skill e fazer coisas da forma que queres.

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"Quase todos os dias sou marcado" - entrevista com o artista que deu vida ao primeiro mural público de Paços de Ferreira

José Mendonça tem 29 anos e é tatuador, além disso, é ainda artista e não se limita à sua profissão, procurando explorar mais a área com a qual se identifica: o desenho.

O artista é natural de Paços de Ferreira, lugar onde, recentemente, teve a honra de ser convidado a desenhar sobre o primeiro mural do concelho. Tendo em conta a paixão de José, o EMISSOR procurou descobrir mais sobre o próprio e entender de que formas o artista se expressa através da arte do desenho.

EMISSOR: Quando começaram a surgir os primeiros projetos?

JM: Desde muito novo, eu gostava de fazer pintura, eu não diria projetos, porque acho que nunca foi uma coisa que eu dissesse “isto é um projeto”. Eu ia fazendo coisas… Depois tornou-se mais oficial quando comecei a tatuar e a desenvolver projetos mais sérios, aí sim, diria que são projetos. Agora, o primeiro projeto eu não consigo dizer qual foi, porque foi um processo.

 

EMISSOR: Considera que a sua profissão enquanto tatuador é capaz de refletir a sua paixão pelo desenho?

JM: Sim, define a minha paixão pelo desenho, mas eu acho que a minha profissão não me define como pessoa. Eu sou tatuador, mas eu não gosto de ser só isso, porque estaria limitado só a “tatoos” e eu não faço só “tatoos”. Eu arranjei quase uma forma de fazer o que gosto e conseguir levar a minha vida.

 

José Mendonça - Direitos Reservados

 

EMISSOR: Existe algum desenho ou tatuagem que tenha feito que o marcou até hoje?

JM: Tem pessoas que me marcam, há clientes que me marcam sem dúvida. Agora, uma tatuagem em específico? Não há uma em específico. É bom estar nesta profissão porque conheço pessoas e consigo saber da história delas, histórias pessoais e íntimas e acaba por ser interessante. Eu sinto-me grato por conhecer muitas pessoas e não consigo dar realce aqui a uma história, porque quase todos os dias sou marcado.

 

EMISSOR: Qual o projeto que mais lhe deu prazer alcançar?

JM: Abrir o estúdio foi um marco importante porque consegui tornar uma coisa que eu gosto de fazer em profissão, e tudo o que tem acontecido até agora tem me marcado. Mas sim, o estúdio foi importante.

 

EMISSOR: O que é que contribuiu mais para ser artista? Foram os estudos ou a experiência pessoal?

JM: Foi um bocadinho de tudo, acho que foi uma mistura. Eu dou valor aos estudos e ao ensino académico, mas acho que não é o mais importante, acho que a pessoa, com as vivências, consegue aprender mais e a interessar-se mais pelas coisas que gosta e aprender sobre elas do que propriamente o ensino académico. Eu aprendi coisas importantes na escola, obviamente, mas sinto que sou um bocadinho autodidata, porque também aprendi muito sozinho e com os meus erros. Eu estudei em Paços de Ferreira, Artes Visuais, e na altura não dava muito valor à aprendizagem académica e na altura comecei por mim, a procurar formas de aprender coisas e ser autodidata. Mas acho que foi com isso que aprendi mais, com as minhas experiências e com as tentativas que tive ao longo da vida.

 

Tatuagem da autoria de José Mendonça - Direitos Reservados

 

EMISSOR: Qual o significado que o desenho tem para si?

JM: Eu sou uma pessoa que se expressa melhor através do desenho do que com palavras, ou por escrito, ou de qualquer outra forma. Por isso, eu acho que o desenho é quase o meu refúgio para eu conseguir expressar coisas que não são ditas através de palavras, são imagens.

 

EMISSOR: Enquanto artista, quais foram as suas maiores influências?

JM: Eu tenho algumas influências, mas eu gosto sobretudo dos artistas surrealistas, como Dali e Margritte. Mas acho que sou uma pessoa influenciada por muita coisa. Por exemplo, posso estar a ouvi uma música e isso influenciar-me e, às vezes, a música não tem muito a ver com o meu estilo. Como posso ver uma imagem que não tem nada a ver pode influenciar-me no desenho. Eu gosto muito do surrealismo, mas gosto sobretudo de coisas que marcam pela diferença.

 

Arte de José Mendonça - Direitos Reservados

 

EMISSOR: Recentemente foi convidado para a elaboração do primeiro mural público, já inaugurado, na cidade de Paços de Ferreira. Como foi, para si, ter feito parte desta experiência?

JM: Inicialmente isso foi no seguimento de várias exposições que houveram e eu costumava expor sempre para Paços de Ferreira, ou seja, quando havia exposições, eu costumava expor sempre e fazer a minha exposição. Mas, desta vez, eles pediram-me um mural, eu tinha feito alguns, mas eu não tenho sequer um portfólio de um mural. Eu fui fazendo, haviam pessoas que me pediam e eu fazia.

Na altura, eles tinham-me pedido um mural mas era noutro sítio, e depois mudaram de sítio e, então, isso não aconteceu bem no timing das exposições, ou seja, parece que foi uma coisa feita à parte.

Mas não, foi no seguimento dessas exposições e convidaram-me, eu senti-me mesmo agradecido porque nunca tinha feito algo tão grande e tão oficial e sim, gostei muito, e agradeço mesmo a oportunidade.

 

EMISSOR: Qual o significado do desenho expresso no mural?

JM: Aquilo é um exercício muito básico. Aquilo nós aprendemos a fazer em Educação Visual e Tecnológica (EVT), é um exercício que te ajuda a perceber que com um conjunto de linhas consegues obter um volume. Ou seja, uma linha é uma coisa bidimensional, sem perspetiva e sem dimensão, mas, em conjunto, conseguem formar, uma forma(s) ou uma textura.

Eu peguei nisso por ser um exercício mesmo simples e o que eu fiz foi descontextualizar isso, porque isso é um exercício de EVT do quinto ou do sexto ano, e colocar isso num muro. No fundo a arte é isso, se descontextualizares alguma coisa, ela passa a ter um valor artístico e o meu objetivo foi esse. Foi pegar numa coisa simples, que eu acho que é fácil perceber, e transportar isso para o muro.

 

Direitos Reservados

 

EMISSOR: Que conselho ofereceria àqueles que procuram seguir o ramo da arte?

JM: Acho que tem que haver muita persistência, dedicação e paixão sobretudo, porque, é verdade que podes nascer com um talento, por exemplo, de desenhar, ou cantar, ou o que for. Mas acho que o talento não basta, tem que haver prática e tem que haver um gosto muito grande por aquilo que fazes, para conseguir aumentar o teu skill e fazer coisas da forma que queres.

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