Ao fim da tarde, num dia de chuva, a notícia caiu-me nos ouvidos. A notícia era triste, inesperada, mesmo sabendo que a doença estava lá, a roer aquele corpo, aqueles ossos, aquela mente tão eloquente. E, como é óbvio, ela retirou-me da rotina.

Por isso, antes do jantar fui até à capela mortuária de Lordelo. E fiquei com a boca aberta, o olhar alargado, quando vi que, em volta do edifício, existia um concerto de guarda-chuvas, porque no interior não cabia nem mais um ovo. Por causa disso, não saí do carro. E aí deixei-me estar até a torre da igreja tocar uma hora tardia.

 No interior da capela mortuária, o caixão estava encostado a um canto, a uma parede que, no topo, perto do tecto, estava verter lágrimas. E perto desta, no mesmo sítio, estava uma mancha enorme. Uma mancha tão grande que, ao longe, parecia um homem deitado.

As imagens deste texto, as cores destas palavras não são ficcionais. São verdadeiras, mas são só uma porção da verdade. Portanto, é essencial que, para breve, haja um debate franco e espesso. Um debate que visa a melhoria da existente ou a construção de uma nova capela mortuária, porque Lordelo merece, porque Lordelo precisa.

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