Há ministros que passam pelos cargos como quem atravessa uma sala cheia demais: pedem licença, evitam esbarrões, falam baixo e saem sem que ninguém perceba direito. E há outros que incomodam. Não pelo tom de voz, nem pela pose, mas pela competência. Fernando Alexandre parece pertencer a esse segundo grupo.
Incomoda porque estuda antes de falar. Porque prefere dados a slogans. Porque, num tempo em que a política se habituou a improviso e à frase fácil, insiste em tratar os problemas como eles são: complexos, cheios de nuances e resistentes a soluções mágicas. Isso, convenhamos, é profundamente desconfortável.
A competência tem esse efeito curioso. Ela expõe a preguiça alheia. Quando alguém apresenta diagnósticos claros, metas mensuráveis e explica limites com honestidade, torna visível o contraste com anos de discursos vazios e promessas recicladas. Não é um incômodo barulhento: é silencioso, persistente, quase pedagógico. E talvez por isso irrite tanto.
Fernando Alexandre não parece interessado em ser unanimidade. E ainda bem. A unanimidade, na política, costuma ser inimiga da verdade. O ministro incomoda porque não dramatiza para as câmaras, não simplifica o que não pode ser simplificado e não trata o cidadão como plateia infantil. Em vez disso, assume o risco de ser impopular ao dizer que políticas públicas exigem tempo, continuidade e escolhas difíceis.
Há também o incômodo de quem não preforma o cargo, mas o exerce. Em um cenário em que a visibilidade muitas vezes vale mais do que o resultado, a postura técnica soa quase como afronta. É como se a competência dissesse, sem palavras: “dá para fazer melhor”. E isso ninguém gosta de ouvir, especialmente quem se acostumou ao conforto do mínimo esforço.
Claro, competência não é garantia de acerto eterno. Ministros erram, decisões falham, contextos mudam. Mas há uma diferença essencial entre errar tentando fazer o certo e errar por despreparo. O primeiro caso convida ao debate: o segundo, à desilusão. O incômodo que Fernando Alexandre provoca nasce exatamente aí: na sensação de que, com método e seriedade, a política pode ser menos espetáculo e mais trabalho.
Num país cansado de ruídos, talvez seja hora de valorizar esse tipo de incómodo. O que vem da competência não destrói: constrói. Não grita; explica. Não promete atalhos; aponta caminhos. E se isso causa desconforto, talvez o problema não esteja em quem incomoda, mas em quem se acostumou demais à mediocridade.
No fim das contas, ministros competentes sempre incomodaram. A novidade seria se não incomodassem mais.
TSD LOUSADA




