OpiniãoHabitação em Paços de Ferreira, a pressão que cresce em silêncio

Habitação em Paços de Ferreira, a pressão que cresce em silêncio

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Durante anos, Paços de Ferreira esteve relativamente protegido das dinâmicas mais agressivas do mercado imobiliário que marcaram as grandes áreas metropolitanas. No entanto, essa realidade está a mudar de forma gradual, quase impercetível, mas com efeitos cada vez mais concretos na vida de quem aqui vive.

O aumento dos preços de venda e arrendamento é hoje um facto sentido por muitas famílias, mesmo que ainda não seja amplamente debatido no espaço público. Casas que há poucos anos estavam acessíveis à classe média tornaram-se difíceis de adquirir, e o mercado de arrendamento apresenta valores que já não acompanham os rendimentos praticados no concelho. Esta discrepância cria um problema estrutural, trabalhar em Paços de Ferreira já não garante, por si só, viver em Paços de Ferreira com dignidade.

Os jovens adultos e os casais em início de vida familiar são os primeiros a sentir este impacto. Entre contratos de trabalho pouco estáveis, exigências bancárias mais apertadas e rendas elevadas, muitos acabam por adiar projetos de vida ou por procurar habitação noutros concelhos. Este fenómeno, embora discreto, tem consequências profundas, perda de população ativa, envelhecimento demográfico e enfraquecimento do tecido social local.

A situação é agravada pela escassez de oferta habitacional a custos controlados. A construção nova tende a dirigir-se a segmentos de mercado mais elevados, enquanto a reabilitação do parque habitacional existente avança lentamente. Falta uma estratégia clara que promova habitação acessível, seja através de parcerias público-privadas, incentivos à reabilitação urbana ou programas municipais orientados para arrendamento a preços compatíveis com os salários locais.

Importa sublinhar que este não é um problema exclusivo do mercado nem pode ser resolvido apenas com medidas nacionais. A habitação é também uma responsabilidade local, que exige planeamento, visão de longo prazo e coragem política para antecipar cenários antes que se tornem crises evidentes. Esperar que Paços de Ferreira atinja níveis de pressão imobiliária semelhantes aos grandes centros seria um erro estratégico difícil de corrigir.

Mais do que números ou estatísticas, está em causa o direito a viver no território onde se trabalha, se estuda e se constrói comunidade. Se o concelho pretende manter-se atrativo para jovens, famílias e profissionais qualificados, terá de colocar a habitação no centro da sua agenda pública não como tema secundário, mas como pilar do desenvolvimento sustentável e da coesão social.

A pressão imobiliária em Paços de Ferreira pode ainda ser silenciosa, mas os seus efeitos já são audíveis no quotidiano de muitas pessoas. Ignorá-la agora é correr o risco de a transformar num problema estrutural amanhã.

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