Banco Municipal de Ferramentas: uma ideia simples que pode transformar Paços de Ferreira
Em cada freguesia do nosso concelho existe, pelo menos, um vizinho que tem ferramentas a mais e outro que não tem as que precisa. Uns compram berbequins para usar duas vezes por ano; outros adiam reparações essenciais porque não conseguem suportar o custo de determinados equipamentos. Esta realidade, muitas vezes encarada como um detalhe doméstico, é na verdade um problema económico e social concreto, com impacto direto na qualidade de vida das famílias. E é precisamente aqui que surge uma solução simples, inovadora e de baixo custo: a criação de um Banco Municipal de Ferramentas.
A ideia é tão prática quanto eficaz. Criar um espaço municipal onde qualquer cidadão possa requisitar, por empréstimo, ferramentas, máquinas e equipamentos destinados a pequenas obras, jardinagem, reparações domésticas ou projetos comunitários. Não se trata de uma invenção teórica ou experimental. Modelos semelhantes já existem em várias cidades europeias, com resultados muito positivos, porque promovem a partilha, reduzem o desperdício e fortalecem os laços comunitários.
Paços de Ferreira tem razões muito próprias para avançar com uma iniciativa deste tipo. Vivemos num concelho marcado pelo trabalho manual, pelo empreendedorismo, pela indústria do mobiliário, pela carpintaria, pela serralharia e pela construção. Ainda assim, ferramentas de qualidade continuam a ser caras. Um simples corta-relvas pode custar cerca de 250 euros. Uma máquina de lavar a alta pressão ultrapassa facilmente os 200 euros. Uma plaina elétrica ou um aparafusador profissional podem atingir valores na ordem dos 150 euros ou mais. Para muitas famílias, estes montantes são incomportáveis. Para outras, representam um investimento pouco racional, quando o equipamento é usado apenas uma ou duas vezes por ano.
O Banco Municipal de Ferramentas responde de forma direta a estes dois problemas. Por um lado, democratiza o acesso a equipamentos essenciais. Por outro, evita compras desnecessárias e incentiva a reparação em vez da substituição. Mais do que isso, reforça um princípio fundamental da vida em comunidade: a partilha como força coletiva.
O funcionamento prático do projeto é simples, transparente e perfeitamente exequível. A Câmara Municipal disponibilizaria um espaço físico, que poderia ser um armazém municipal ou uma antiga escola desativada, onde ficariam guardadas as ferramentas. Qualquer residente do concelho poderia requisitar equipamentos de forma gratuita, por períodos definidos, entre 24 horas e sete dias. Todo o processo seria acompanhado por um sistema informático, com registo de entradas, saídas, eventuais danos e substituições. Existiriam regras claras quanto ao uso responsável, aos prazos de devolução e à responsabilização em casos de negligência. O stock inicial incluiria equipamentos básicos e de uso frequente, como berbequins, serras, chaves de fendas, máquinas de pressão, corta-relvas, escadotes, kits de jardinagem e equipamentos de proteção individual, como máscaras e óculos de segurança. Este espaço poderia ainda assumir uma vertente formativa, com pequenas sessões de demonstração sobre segurança e utilização correta das ferramentas.
Naturalmente, qualquer política pública levanta a questão do custo. Neste caso, os números são claros e perfeitamente comportáveis. O investimento inicial, incluindo a aquisição de ferramentas e máquinas, software de gestão, adaptação do espaço municipal e equipamentos de organização e segurança, rondaria os 83 mil euros. O custo anual de funcionamento, incluindo um técnico responsável em regime parcial e despesas de manutenção, não ultrapassaria os 28 mil euros. Num orçamento municipal superior a 70 milhões de euros, este projeto representaria cerca de 0,12% da despesa anual, um valor praticamente irrelevante do ponto de vista financeiro, mas com um impacto social potencialmente enorme.
Além de apoiar diretamente as famílias, esta medida contribuiria para a redução do desperdício, para a promoção da economia circular e para a criação de um serviço público moderno, inovador e verdadeiramente útil. Mais do que um simples armazém de ferramentas, o Banco Municipal seria um símbolo de um concelho que partilha, que se organiza e que cuida dos seus. Um concelho onde ninguém deixa de arranjar uma porta, montar um móvel ou cortar a relva por não ter dinheiro para comprar um equipamento que só vai usar ocasionalmente.
Paços de Ferreira tem uma longa tradição de trabalho, engenho e solidariedade. Criar um Banco Municipal de Ferramentas é honrar essa identidade, oferecendo aos cidadãos meios reais para resolver problemas concretos do dia a dia. É uma medida moderna, acessível, financeiramente responsável e socialmente transformadora. Para muitos munícipes, seria talvez a primeira vez que a Câmara ofereceria algo verdadeiramente prático, imediato e útil. No fundo, é isto que significa governar para as pessoas.




