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OpiniãoJorge Sampaio: o futuro do passado?

Jorge Sampaio: o futuro do passado?

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A morte de Jorge Sampaio fez emergir um conjunto de memórias e debates acerca da importância desta figura ímpar da democracia Portuguesa e, também, fez sublinhar o debate interno que já se faz sentir, desde há muito, no PS e que envolve a putativa sucessão de António Costa. As clivagens ideológicas dentro do PS, próprias de todos os partidos, tiveram, simbolicamente, subliminarmente e de forma latente, mais um confronto que se advinha bem mais contundente num futuro próximo.

Apesar de todos os socialistas, ou quase todos, e até alguns democratas cristãos, se terem arrogado da herança de Jorge Sampaio e do seu legado, a verdade é que o ex-Presidente da República representa muito daquilo que uma parte do PS teme ou enjeita.

Este reclamar do legado de Jorge Sampaio, foi feito um pouco por todos. Desde os socialistas que sempre o olharam com desconfiança, por o pensarem muito à esquerda e demasiadamente imbricado no diálogo com as forças à esquerda do PS e por ter muita da sua identidade política forjada no MES, até aos socialistas que, menos comprometidos do que Jorge Sampaio com a defesa intransigente da igualdade e equidade social através de uma intervenção estatal reparadora dos mecanismos geradores dessas mesmas diferenças sociais que condenam quase sempre os mesmos a uma vida desqualificada ou menos qualificada, contentando-se com ações minimalistas de combate à pobreza extrema, próximas do que preconizam os partidos liberais, passando pelos que, convictamente são sociais-democratas de centro-esquerda. Isto é, nem todos serão legítimos herdeiros da sua herança.

O exemplo paradigmático de que Jorge Sampaio nem sempre foi uma figura perfeitamente consensual dentro do PS está na forma como teve, em determinado momento da sua vida, que se impor ao partido forçando a sua candidatura à Presidência da República e obrigando o partido a apoiá-lo. Aliás, um pouco à imagem do que já tinha acontecido quando foi eleito secretário-geral do PS ou quando se assumiu como candidato a Lisboa. De resto, esta trajetória política de Sampaio começa a ter muitas semelhanças com o caminho partidário que Pedro Nuno Santos está a percorrer desde há muito. Tal como não o foi para Jorge Sampaio, também, para Pedro Nuno Santos conquistar o partido não será uma tarefa fácil, porquanto este comporta uma dimensão, lideranças e atores que são, por vezes, os maiores opositores a uma social-democracia de centro-esquerda que tem na intervenção estatal ativa, na centralidade das políticas sociais emancipadoras e não assistencialistas, caritativas e reprodutoras da realidade social, o âmago do seu pensamento político e da sua ação política. Por outro lado, António Costa e alguns dos seus mais fieis seguidores, não serão tão à esquerda como Pedro Nuno Santos, mas, também, não são nem podem ser considerados políticos de centro-direita para além de que nestes não há nenhuma evidência de “esquerdofobia”, bem pelo contrário, pois foi com estes atores que se deu um diálogo intra-esquerdas, de que Jorge Sampaio foi precursor. Aliás, António Costa foi muitas das vezes um “compagnon de route” do ex-Presidente da República.

Penso que é nesta conjuntura, de tentativa de criação de espaço, que surge a tão eloquente e inteligente frase de Pedro Nuno Santos à saída do velório de Jorge Sampaio, quando refere que sobejam os socialistas de cartão e faltam os socialistas de coração, ou de outra forma, que o partido carece de militância com consciência ideológica de centro-esquerda.

A ver vamos se o futuro será feito do passado de Jorge Sampaio ou de outras tendências igualmente legítimas.

 

Marcos Taipa Ribeiro

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