OpiniãoDemocratizar a Venezuela

Democratizar a Venezuela

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Na esquina da padaria, o rádio insiste em chiados antigos. Entre uma música interrompida e outra promessa atrasada, a palavra “democracia” passa como quem pede licença, mas não entra. Na Venezuela, ela aprendeu a caminhar com cuidado, como quem atravessa uma sala cheia de móveis herdados de guerras, discursos e silêncios.

Democratizar não é trocar o retrato na parede do palácio. É abrir as janelas. É deixar que o vento da discordância circule sem ser confundido com tempestade. É aceitar que país não cabe num slogan, nem num uniforme, nem num único tom de vermelho ou de azul. A democracia, ali precisa reaprender a ouvir – inclusive o que incomoda,

Nas filas longas, as pessoas já praticam um voto diário: escolher ficar. Ficar apesar da inflação que come números, apesar da mala sempre pronta para partir, apesar da desconfiança que se senta à mesa. Democratizar a Venezuela passa por reconhecer essa teimosia como virtude cívica, não como obstáculo.

Há também a memória. Um país não se democratiza apagando o passado, mas iluminando-o. Verdade e justiça não são luxo estrangeiro; são ferramentas domésticas. Sem elas, a conversa vira monólogo e o futuro, repetição.

Democratizar é devolver sentido às instituições, para que não sejam apenas prédios com ar-condicionado. É garantir que o voto valha mais que o medo, que a lei pese mais que o favor, que a imprensa respira sem pedir desculpas. É permitir que o governo perca – e sobreviva – porque isso é sinal de força, não de fraqueza.

No fim da tarde, o rádio finalmente toca uma música inteira. A padaria fecha. A palavra “democracia” senta-se à mesa, cansada, mas inteira. Não é milagre, é trabalho. E, como toda crônica inacabada, a Venezuela ainda escreve a sua – linha por linha, com erros, correções e a coragem de continuar.

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