Em Portugal, a crise da habitação tem uma qualidade curiosa: todos sabem que existe, todos falam dela e, ainda assim, parece continuar a crescer com uma saúde invejável. É talvez um dos poucos setores onde o consenso político é absoluto – concorda-se que é um problema grave – mas as soluções continuam a circular lentamente entre estudos, comissões e anúncios.
Entretanto, nas cidades de Lisboa e Porto, os preços das casas descobriram uma nova vocação. Competir com capitais europeias muito mais ricas. A diferença é que, em Portugal, os salários continuam a viver num universo paralelo, mais próximo da realidade nacional.
O resultado é uma espécie de milagre económico: um país onde se paga como em cidades ricas, mas se ganha como numa economia em desenvolvimento. Não é fácil conseguir tal equilíbrio. Talvez seja um talento nacional ainda por exportar.
A política, naturalmente, tenta acompanhar. Surgem pacotes de medidas com nomes promissores, programas de arrendamento acessível, incentivos fiscais e promessas de construção. Tudo isto acompanhado por conferências, apresentações e gráficos cuidadosamente preparados. O problema é que, entre o anúncio e a chave na porta, costuma passar mais tempo do que uma geração inteira consegue esperar.
Enquanto isso, os jovens portugueses tornaram-se especialistas em duas áreas: procurar casa e fazer contas. Muitos descobrem rapidamente que sair de casa dos pais exige um salário que ainda não existe ou uma renda que já não cabe no orçamento. Alguns optam por dividir apartamentos, outros por mudar para periferias cada vez mais distantes, e há quem simplesmente faça as malas.
É claro que o mercado tem a sua lógica. O turismo cresce, o investimento internacional chega e Portugal tornou-se um destino desejado. Tudo isto traz dinheiro, dinamismo e novos residentes. O problema é quando a cidade se torna tão atrativa que começa a expulsar quem sempre viveu nela,
A ironia é que a habitação é, ao mesmo tempo, um direito constitucional e um dos ativos mais valorizados do mercado. Entre estas duas ideias – direito e investimento – decorre grande parte da política portuguesa sobre casas.
Talvez a solução seja simples, mas politicamente incómoda: construir mais habitação acessível, aumentar o parque público e garantir que viver numa cidade portuguesa não seja um privilégio reservado apenas a quem chega com capital suficiente.
Até lá, Portugal continuará a aperfeiçoar o seu modelo peculiar: um país onde comprar casa é difícil, arrendar é caro e discutir o problema é relativamente fácil.
TSD Lousada







