OpiniãoA Política e a espuma dos dias

A Política e a espuma dos dias

Relacionados

Será que o PSD de Paços de Ferreira está rejuvenescido?

O PSD Paços de Ferreira iniciou um novo ciclo com as eleições internas do partido, que elegeram Miguel Pereira como novo presidente da Comissão...

O SNS está a falhar e já não é possível fingir que não vemos

Durante décadas, o Serviço Nacional de Saúde foi um dos maiores orgulhos de Portugal. Um sistema universal, tendencialmente gratuito, que garantia cuidados de saúde...

Abril, Sempre

Há datas que não cabem no calendário – vivem na pele de um país. O 25 de Abril é uma delas. Não é apenas...

Há dias em que a política parece uma maré cheia de promessas e, no entanto, o que chega à praia é apenas espuma. Branca, leve, efémera – palavras inflamam-se nos ecrãs, os gestos multiplicam-se nas redes, e cada indignação dura até à próxima notificação. A política – que deveria ser o exercício paciente de construir o comum – transformou-se num espetáculo contínuo. Cada ator procura o melhor ângulo, o melhor som, o melhor escândalo. E nós, espectadores, confundimos ruído com substância, movimento com mudança.

Mas a espuma, por mais vistosa que seja, não é o mar. O mar é o fundo silencioso onde se decidem as correntes, onde o tempo trabalha em profundidade. É aí que as verdadeiras transformações acontecem – lentas, invisíveis, quase teimosas. Talvez devêssemos aprender a olhar para esse fundo, a ouvir menos as ondas que gritam e mais o murmúrio que perdura.

Porque a politica – a verdadeira – não é feita de frases virais nem de gestos formativos. É feita de escolhas concretas, de escuta, de convivência. É o exercício humilde de cuidar do espaço que partilhamos. Quando esquecemos isso, ficamos apenas com a espuma: bela, talvez, mas vazia.

E assim seguimos, entre a pressa e o esquecimento, à espera de um dia a maré nos devolva um sentido mais profundo – um gesto que pese, uma palavra que fique, uma política que não se dissolva com o vento.

No entanto, há uma esperança discreta nas margens desse tumulto. Ele habita nos gestos que não procuram aplauso, nas vozes que se recusam à pressa, nas perguntas que resistem a respostas fáceis. Talvez a política comece novamente em aceitarmos mergulhar – abandonar a espuma e descer ao fundo, onde as correntes são lentas, mas verdadeiras.

Porque o que nos falta não é opinião, é profundidade. E nenhuma sociedade sobrevive apenas à flor da água.

TSD LOUSADA

- Publicidade -
- Publicidade -spot_img
- Publicidade -spot_img
- Publicidade -spot_img

Últimos Artigos

- Publicidade -