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Há datas que não cabem no calendário – vivem na pele de um país. O 25 de Abril é uma delas. Não é apenas memória; é respiração. É o dia em que a palavra “liberdade” deixou de ser sussurrada para passar a ser dita em voz alta, imperfeita, discutida – mas finalmente nossa.

Fala-se muitas vezes de democracia como um sistema, um conjunto de regras, eleições, parlamentos, maiorias e oposições. Mas a democracia, como Abril nos ensinou, é antes de tudo um gesto. Um gesto de recusa do medo. Um gesto de confiança – talvez ingénua, mas necessária – de que o povo deve ser dono do seu destino, mesmo quando erra.

E erra. Erra muito.

A liberdade não trouxe um país perfeito. Trouxe um país possível. Trouxe greves, debates acesos, desilusões e promessas por cumprir. Trouxe também algo mais difícil de medir: dignidade. A possibilidade de discordar sem desaparecer, de criticar sem ser silenciado, de escolher sem pedir licença.

Hoje, quando a democracia parece, por vezes, cansada – capturada por ruído, desinformação ou indiferença – convém lembrar que ela nunca foi um ponto de chegada. É um caminho irregular, cheio de atalhos perigosos e regressos inesperados. Abril não nos garantiu a liberdade; deu-nos a responsabilidade de a manter.

E essa responsabilidade é menos épica do que a revolução. Não há tanques nas ruas nem cravos nas espingardas. Há, isso sim, escolhas pequenas: votar ou não votar, informar-se ou partilhar sem pensar, ouvir ou apenas reagir. A liberdade desgasta-se não só com tiranos, mas com o desinteresse dos livres.

Talvez por isso o 25 de Abril continue a ser urgente. Não como celebração nostálgica, mas como pergunta incómoda: o que fazemos nós, hoje, com a liberdade que herdámos?

A democracia vive desse incómodo. Dessa inquietação permanente. E, apesar de tudo – ou talvez por causa de tudo – continua a ser o melhor que conseguimos inventar para viver juntos sem medo.

Abril não terminou. Abril exige-nos.

TSD Lousada

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