Abram alas para o confronto épico de ilusão política que a imprensa local nos oferece em dois atos. Numa esquina, temos o paraíso dourado desenhado à medida pelo Presidente da Câmara; na outra, a encenação melodramática do deputado local, um autêntico criador de conteúdos do ressentimento a ocupar um assento na Assembleia da República.
Entre o delírio da abundância do executivo municipal e o ruído vazio para alimentar algoritmos, quem tiver dois neurónios a funcionar acaba a concluir, com surpreendente clareza, que o concelho estava infinitamente mais bem servido com o trabalho parlamentar da deputada Glória Araújo.
Comecemos pelo homem que transformou Paços de Ferreira no Mónaco do Tâmega e Sousa: Ler a sua crónica, não é um exercício de reflexão autárquica; é uma viagem cósmica por entre pontos de exclamação e autoelogio compulsivo. No concelho que este edil atualmente representa não existem escalões, não há orçamentos apertados, não há problemas reais. Há creches gratuitas para todos, cheques-bebé a brotar do chão e até urgências num hospital privado pagas pelo erário público. Um milagre bíblico com carimbo do município!
Ao ‘ouvir’ o presidente, dá vontade de rasgar a declaração de IRS e acampar debaixo de um viaduto pacense, tal é a chuva de benesses que cobre ricos e remediados. É o clássico populismo cor-de-rosa embrulhado em cartaz eleitoral de feira, rematado com um caloroso “forte abraço aos munícipes”. Mas se o edil municipal vive numa pastelaria de contos de fadas, o deputado republicano decidiu converter o parlamento num estúdio de gravação para a sua própria indignação performativa.
O ex-autarca, agora em versão “deputado tiktoker”, parece estar em São Bento apenas para sacar pequenos clipes de drama e alimentar redes sociais com soundbites fúnebres.
Desatou a debitar o guião da praxe: “a nova pobreza tem emprego e paga impostos”, o papão da AD e o apocalipse social ao virar da esquina. É a atitude típica do influenciador político de bancada: vocifera, acusa, aponta o dedo, faz poses graves para a câmara, mas substância, propostas ou trabalho legislativo de fundo… zero.
Limita-se a ocupar a cadeira parlamentar para gerar ruído e polarização barata, atirando pelo meio uma referência cosmética aos trabalhadores de Paços de Ferreira só para justificar o espaço de antena na imprensa local. O choque roça o ridículo: enquanto o presidente jura que Paços de Ferreira é um oásis perfeito onde ninguém passa dificuldades, o seu correligionário deputado chora nas redes que as famílias estão esmagadas e no limite da miséria.
Em que ficamos? É a Suíça do Norte ou o vale da fome? Talvez seja mais sensato alinharem o discurso da máquina partidária.
É neste circo de vaidades que o contraste se torna gritante. Em tempos, Paços de Ferreira teve na Assembleia da República uma figura como Glória Araújo: uma deputada que sabia exatamente ao que ia, que conhecia os meandros do parlamento, que não precisava de histerismos de ecrã nem de caçar visualizações para defender o território com peso institucional e rumo definido. Glória Araújo tinha foco, sabia fazer pontes e trazia resultados práticos sem precisar de transformar o mandato num feed de ataques diários. Hoje, trocou-se a relevância política pela pirotecnia de vão de escada: um presidente que se autoelogia sem pudor e um deputado que reduziu São Bento a um palco de acusações teatrais para render likes.
Se a alternativa à sobriedade de outrora é este espetáculo de influenciadores locais sem conteúdo, então valha-nos a memória de Glória Araújo, porque ver o concelho refém de aspirantes a celebridades digitais é uma fatura pesada demais para os pacenses pagarem.
