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“A fome não tem hora de espera”. A luta diária dos voluntários para satisfazer as necessidades das famílias carenciadas

“É um facto que as necessidades são muitas e a capacidade de resposta é pouca”, refere Arianne Santos, voluntária no grupo “Família Solidária”. Existem problemas que se têm vindo a arrastar em Portugal desde o início da pandemia. O desemprego, os apoios financeiros e a fome são alguns desses problemas. O grupo “Família Solidária” não pertence a nenhuma associação e foi criado há cerca de um ano para colmatar, de forma direta, os maiores problemas das famílias que se vêm à beira do desespero.

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Com os tempos que correm, tendo em conta a situação pandémica em que o país se encontra, várias famílias surgem, em vários pontos de Portugal, a pedir ajuda. Nilza Magalhães, em conjunto com o seu marido, Pedro Magalhães, criaram a página “Família Solidária”, a qual tem ido ao encontro de várias destas famílias, fornecendo-lhes alimentos e outros bens essenciais para que estes consigam sobreviver à crise instalada no país. Com eles, trabalham as voluntárias Catarina Garrau, Inês Mesquitela, Ana Plácido, Cátia Rodrigues, Sofia Menezes e Solange Capucho, pertencentes à administração da página.

Após o impacto socioeconómico que a Covid-19 instalou no país, várias famílias viram os seus rendimentos reduzidos, algumas delas acabaram por ficar sem emprego, agravando com o isolamento social que as impossibilitou de pedir ajuda. A “Família Solidária” é um grupo de amigas, criado para ajudar as pessoas nesse sentido, através da encomenda e entrega de alimentos e outros bens essenciais necessários por parte das famílias.

O grupo, criado por um casal, Nilza e Pedro Magalhães, destina-se a promover a entreajuda, abrindo canais para fazer chegar estes bens essenciais às famílias mais carenciadas.

“É uma logística muito grande”, começa por narrar Nilza Magalhães, “após fazermos a triagem com a família, o pedido vai para a página e, depois, criamos uma logística com os voluntários para que estes possam responder e acompanhar”. O papel da administradora demonstra-se importante, uma vez que é “o elo entre a família e o voluntário, para preservar a privacidade da família e do voluntário, para que a família não fique com acesso ao voluntário de forma a pedir ajuda fora do projeto”.

De acordo com Nilza Magalhães, o grupo “Família Solidária” nasceu no dia 4 de abril de 2020 dado às circunstâncias socioeconomica da pandemia. O marido de Nilza, mentor da ideia, criou um grupo chamado “Mercearia Solidária”, no entanto, uma vez que Nilza tinha um grupo de amigos grande e diversificado, foi realizado um convite para a parte da administração de forma a divulgar o projeto. A partir daí, Nilza conta que começou a receber algumas doações em casa para fornecer às famílias carenciadas e, já com 92 membros, nasceu mais um projeto, a “Caixa Solidária” que, de acordo com a própria, tornou-se um “sucesso”.

Residente em Alvalade, em Lisboa, Nilza começou a distribuir produtos pelas várias caixas solidárias nos arredores da sua moradia, no entanto, de acordo com um segurança que trabalhava perto de uma das caixas solidárias, após Nilza encher a caixa solidária, as mesmas pessoas usufruíam sempre dos produtos colocados.

Não satisfeita com este tipo de ajuda, Nilza começou a pensar em algo diferente e, através da caixa solidária, Nilza conhece Cátia Rodrigues, uma mãe de gémeos que necessitava de fraldas e produtos de higiene e, após realizar uma triagem, Nilza trouxe Cátia Rodrigues para a “Mercearia Solidária”, tornando-se uma das primeiras pessoas/famílias a ser ajudada.

Assim, Nilza Magalhães começou a aperceber-se daquilo que queria realmente fazer, e pediu ajuda a algumas amigas, já influentes, para fazer parte do projeto. O projeto tornou-se num grupo de ajuda direta que, após realização de triagem, onde as administradoras tentam entender a história e situação das famílias carenciadas, de forma a poder ajudar da melhor forma possível. No início, os voluntários levavam as doações a casa de Nilza, onde a própria realizava os cabazes e fazia entrega dos cabazes às famílias com necessidades.

É ainda referido, por parte de Nilza, que as entregas foram sendo realizadas ao longo do país, uma vez que os estabelecimentos comerciais realizam entregas ao domicílio e, assim, o projeto estendeu-se para o Norte, entre vários outros pontos do país.

“Hoje já não recebo nada de doação em minha casa. A Família Solidária é focada na ajuda de bens alimentares, produtos de higiene e produtos de limpeza para casa. Porque o que eu percebo é que se pessoa não tem para comer, ela não tem um detergente de roupa. Se está a passar por um momento de aflição, ela não tem para comprar detergente de loiça”, relata Nilza.

Para organizar o grupo, Nilza Magalhães criou várias secções de ajuda:

  • Grupo 1: Alimentos secos, enlatados, leite, azeite, óleo, polpa de tomate, grãos, ovos, açúcar;
  • Grupo 2: Legumes, verduras, frutas, manteiga, pão de forma, bolachas, cereais, iogurtes, queijo, fiambre;
  • Grupo 3: Carnes, frango, bifanas, carnes salchicha fresca, almondegas, carne picada, peixes, congelados;
  • Grupo 4: papel higiénico, produtos de limpeza pra casa, detergente de loiça, roupas;
  • Grupo 5: produtos de higiene para bebé, produtos de higiene pessoal para mães e pais;

Posteriormente, o pedido da família carenciada é colocado no grupo para que, os voluntários que demonstrem interesse, se ofereçam a ajudar. Após verificação da intenção de ajuda, é dada a morada da família, com a devida autorização da mesma, e o voluntário é responsável por entregar essa ajuda à família em questão.

A ajuda é realizada uma vez, de forma generosa, para que a família se sinta à vontade durante duas semanas, posteriormente, estas famílias são encaminhadas para o Banco Alimentar para que exista um acompanhamento frequente.

De acordo com as declarações de Nilza, a pandemia atingiu muitas famílias, nomeadamente “as empregadas domésticas, que recebiam à hora e não têm contrato”, as pessoas “sem contrato de trabalho”, sendo que a maior parte são “empregados de restaurações que perderam os seus empregos e, mesmo em lay off, com as crianças em casa, as despesas aumentaram”, relata.

Nilza conclui referindo que a pandemia não atingiu só as pessoas que recebem o ordenado mínimo, mas também aquelas que tinham uma vida direcionada e acabaram por perder os seus rendimentos.

 

Uma ajuda que se desdobrou

Cátia Rodrigues é voluntária no grupo “Família Solidária”, mas nem sempre o foi, no início, Cátia fazia parte de uma família carenciada que precisou de ajuda em maio de 2020. A voluntária refere que a chegada ao grupo, aconteceu numa altura em que estava a passar “grandes dificuldades” e onde Nilza Magalhães “viu o pedido e me chamou no privado (mensagem) na intenção de querer ajudar”.

Cátia tinha ficado desempregada, tinha sofrido um AVC recentemente e estava em risco de perder a casa por falta de pagamento o que, efetivamente, acabou por acontecer no mês de setembro do mesmo ano. A voluntária refere que, na altura, pediu “bens de higiene e fraldas para os filhos gémeos de três anos que têm autismo. Como não tenho qualquer ajuda do estado, vi-me obrigada a expandir o meu apelo pelo facebook e chegou às mãos da Nilza, que quase de imediato após a nossa conversa lançou o apelo na página e ajudaram me com esses bens”, confessa.

A “Família Solidária” continuou a ajudar Cátia que já se encontrava numa situação precária onde já comida na mesa faltava. Viu-se obrigada a pedir ajuda, novamente, a Nilza que já se encontrava a par da situação. Durante 15 dias, tanto Cátia como os filhos tiveram acesso aos bens alimentares que precisavam.

Após a sua situação, a voluntária que fazia parte de alguns grupos de doação alimentar e não alimentar, via pedidos de pessoas que chegavam à “Família Solidária” e começou a avisar Nilza que eram “aproveitadores”, uma vez que, a essas famílias, eram dados apoios. Foi então que surgiu o convite para que Cátia Rodrigues pudesse fazer parte do grupo, enquanto investigadora de perfis e aceitação dos pedidos de adesão. Agora, é administradora há quatro meses, encontra-se na secção das triagens aos casos e reúne voluntários para avançar com ajuda.

Cátia revela que a sua maior preocupação é “a falta de ajudas por parte do estado, a demorada resposta das entidades competentes, e ainda existe alguma falta de apoios as famílias carenciadas”. Em sequência aos apoios que tem agilizado de forma a providenciar bens de primeira necessidade, confessa que não haver nada “mais satisfatório que chegar ao fim de um dia, e sabermos que aquelas crianças que nos chegam, aquela família que ontem tinha fome, hoje tem um prato de comer na mesa e isso e uma felicidade imensa”.

Por fim, reforça que em Portugal deveriam existir apoios imediatos para este tipo de situação, uma vez que “a fome não tem hora de espera” e complementa que “o desespero apodera-se das famílias, assim como o sentimento de angústia por não sabermos o dia de amanhã”, conclui.

 

Ser voluntária pela “Família Solidária”

Arianne Santos é uma das voluntárias pertencentes ao grupo “Família Solidária”, explicando que a iniciativa surgiu naturalmente, uma vez que já é “uma pessoa naturalmente interessada em ajudar e faço já parte de algumas associações de caridade e voluntariado, e quando vi e pesquisei um pouco mais o grupo “Família Solidária” adorei o projeto e entrei logo em contacto com a Nilza oferecendo a minha prestação”, confessa.

A ajuda é realizada de forma direta às famílias necessitadas, Arianne narra que a ajuda pode realizar-se “ao levar os sacos de compras com comida ou bens de primeira necessidade diretamente às suas casas”, acrescentando que, através da divulgação, é possível chegar a mais pessoas, criando condições para angariar doações em dinheiro a colegas e amigos, doações essas que usámos para ajudar famílias carenciadas.

De momento, a voluntária confessa que o maior problema causado pela pandemia é a fome, explicando que “muitas famílias estão atrás das suas portas de casa a passar fome! Falta de trabalho, fecho de muitos negócios, falta de apoios sociais são as principais razões dos pedidos de ajuda no grupo. Como estão em suas casas, a maior parte dessas famílias passam despercebidas ao resto da sociedade, pois não estão nas ruas a pedir dinheiro”, relata.

No que toca às pessoas que necessitam de ajuda, Arianne refere que as pessoas sentem uma certa vergonha em se exporem, porém, “a necessidade é tanta que quando chegam a este grupo é porque já esgotaram todos os outros meios”. Ao mesmo tempo, evidencia que é possível estas famílias dirigirem-se “às Juntas de Freguesia, à Segurança Social, mas muitas destas famílias têm MEDO de lá irem e lhes serem retiradas as crianças. Há muitas mães completamente apavoradas que lhes tirem os filhos e por isso recorrem a este grupo onde se sentem confiantes que aqui, não há julgamentos, não há críticas. Estamos aqui somente para ajudar, sem pedir nada em troca”.

Desde que entrou no grupo que a voluntária diz sentir-se privilegiada em fazer parte do conjunto de mulheres que dedicam os dias a ajudar o próximo sem proveito próprio, comentando ter “muito respeito pela Nilza e a sua equipa de Voluntárias e gostava de poder ajudar mais. Em dois meses consegui angariar bastantes doações vindas de amigos e colegas e isso faz-me sentir muito feliz! Volto a ter Fé na Humanidade! Gostaria de poder dedicar a minha vida inteiramente à volta da caridade e ajuda social”, afirma.

Ao questionarmos Arianne sobre a questão pandémica que o país atravessa, nomeadamente naquilo que sente mais falta que seja feito, a voluntária confessa que o principal é “levantar o confinamento e deixar o país voltar ao seu ritmo normal e deixar as pessoas voltarem aos seus postos de trabalho, sem medos ou limitações, e que o Governo apoiasse quem verdadeiramente precisa! É urgente que se faça um levantamento ao nível do país para percebermos quem são as famílias a necessitar de apoios humanitários”, conclui.

A par da opinião de Arianne e Nilza, encontra-se Ana Cristina Aleixo, também voluntária no grupo desde abril de 2020. A própria, afirma que “neste momento, no passado e provavelmente no futuro, e a falta de bens alimentares, as pessoas são “dispensadas” brutalmente dos seus empregos e veem-se sem verba para poder fazer face às suas necessidades, famílias sem dinheiro que nada tem para comer”, acrescentando que “além desse facto, existe uma grande tristeza, estão desmotivados, o que leva a grandes depressões e a instabilidade familiar pode ter as suas consequências”.

“Algumas (pessoas) falam que estão à espera de apoios, mas que estão em listas de espera infinitas”, narra Ana Aleixo. A voluntária sentiu, ao fim de seis meses após a sua entrada no grupo, o número crescente de pessoas que estão a pedir ajuda e refere que seria importante a criação de “uma rede de famílias desfavorecidas, para que o estado pudesse apoiá-las diretamente, a fome no nosso país seria muito diferente”.

Liliana Mestre tem a mesma opinião, ao expressar que o maior problema é o “desemprego, que por sua vez conduz a uma situação de fome e desespero. Muitas pessoas ficaram sem qualquer tipo de rendimento, muitas porque já tinham trabalhos precários e que ao ficarem sem trabalho não têm qualquer tipo de apoio. Assim, aliado ao desemprego surge toda uma situação de falta de esperança e desânimo”, acrescentando que “pedidos que surgem percebe-se que muitas famílias estão completamente desamparadas. Muitas têm pedidos feitos nas juntas de freguesias, banco alimentar, etc… mas não têm qualquer resposta. É um facto que as necessidades são muitas e a capacidade de resposta é pouca. Além disso estes são pedidos que se prolongam no tempo porque estamos nesta situação há 1 ano e as pessoas precisam de comer todos os dias. Tenho a certeza que temos sido a boia de salvação de muitas famílias”.

Liliana Mestre é mais uma voluntária do grupo que tem sentido as dificuldades a apertar as famílias mais carenciadas, que afirma haver ainda muito para fazer ao nível nacional, mesmo quando a pandemia passar. A voluntária reconhece que “vão haver sempre famílias carenciadas” e afirma que “em Portugal faz falta um programa eficaz de identificação e apoio às famílias necessitadas. Não sou apologista do dar só por dar, acho que devemos funcionar num sistema de troca…. Devia haver um programa de ajuda em troca de serviços, por exemplo uma família recebe apoio alimentar em troca de prestar serviços por exemplo em escolas, lares, nas juntas, sítios onde existe falta de pessoas para ajudar e que podiam ser uteis e tornar-se uteis à sociedade. Era uma forma de todos serem uteis uns aos outros”, conclui.

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