A política camarária do concelho de Paços de Ferreira encontrou na habitação o pináculo daquela velha expressão popular segundo a qual “a política é a arte de fazer filhos nos outros”.
O que se apresentou como projeto estruturante para o concelho nunca passou de uma ficção conveniente, disfarçada de política social ativa que jamais foi avaliada, desconhecendo-se o seu verdadeiro impacto. É certo que algumas respostas são meritórias, como a rede de creches, mas também é verdade que, apesar da sua importância, esta resposta surge sobredimensionada, mal planeada e isolada da rede já existente, tornando-se mais dispendiosa e menos eficaz, o que é verificável pelo facto de estar a absorver crianças de outros concelhos, vagas estas pagas pelo orçamento concelhio.
Na verdade, o poder camarário dos últimos anos centrou-se sobretudo na animação sociocultural com muito ruído exterior para abafar o silêncio da ausência de um verdadeiro projeto de desenvolvimento para o concelho. A fuga contínua de fábricas para Lordelo-Paredes é disso sinal evidente. Multiplicaram-se eventos tão dispendiosos quanto inusitados pelos valores implicados, cuja fatura começa agora a ser paga. A isto somar-se-á, no próximo ano, o aumento da fatura da água, tudo num município que se revela indisfarçadamente falido e inoperacional, incapaz até de sustentar o próprio festival de ações socioculturais desgarradas e isoladas que criou.
Como diria Eça de Queirós, trata-se da velha “política de acaso e de expediente”, que se foi mascarando, também, graças a um “boom” de construção sem paralelo noutras zonas do país. É verdade que esse movimento trouxe vantagens: a habitação erguida é, na sua maioria, bonita, cuidada e moderna. Mas trouxe igualmente um problema que agora se impõe com violência, isto é, a mobilidade interna está à beira da rutura, com verdadeiras horas de ponta no centro da cidade e uma gritante falta de estacionamento gratuito. Onde deveria existir planeamento, há apenas a exiguidade dos lugares e a ausência de acessos pensados.
É, no fundo, uma forma barata, e até proveitosa para alguns, de fazer política.
Quem olha de fora encanta-se com a beleza dos prédios, com o aparente progresso da cidade, e atribui inconscientemente os méritos ao executivo camarário. Mas se algum mérito existe, ele não é político, mas sim dos privados, que legitimamente investem e constroem.
O problema, porém, ganhou agora contornos mais graves. Um estudo da Casa Direta revela a disparidade entre o preço mediano dos imóveis e o ganho médio dos trabalhadores: Paços de Ferreira surge em segundo lugar na sub-região, com uma taxa de esforço de 37% do rendimento familiar e um valor médio de habitação de 1.472 €/m². Dirão alguns que isso demonstra a capacidade do concelho para atrair novos residentes. Sim, é um facto, mas tal não resulta da criação de infraestruturas ou de um aumento da qualidade de vida local. O concelho continua sem pavilhão desportivo digno, sem oferta cultural qualificada, sem acessibilidades ferroviárias, sem ensino superior fixado.
O que existe é um movimento espontâneo de procura, alimentado pela compressão insustentável da cidade do Porto, que empurra a classe média e média-alta para fora da cidade e até para além dos concelhos limítrofes.
Um olhar provinciano, sedento de vaidades, interesses, especulação e pequenos triunfos, ficará satisfeito com este cenário. Os lobos uivarão em surdina, e as máquinas partidárias aplaudirão, porque também elas beneficiam deste movimento. Mas a médio prazo, a consequência mais grave é a gentrificação de Paços de Ferreira, primeiro da cidade, depois do concelho como um todo.
Os preços das casas em Paços de Ferreira tornaram-se inacessíveis, em grande parte devido à especulação imobiliária que ninguém parece disposto a travar, incluindo a Câmara Municipal e o Governo. Medidas simples, como impedir que uma fração construída possa ser escriturada mais do que uma vez num período de cinco anos, reduziriam significativamente este fenómeno. A ausência de regulação eficaz não só mantém o mercado inflacionado e afasta a população local da possibilidade de adquirir habitação a preços justos, como também gera um profundo desordenamento do território, destruindo a identidade coletiva de um povo e fragilizando a solidariedade mecânica que historicamente estruturou a comunidade.
Os moradores tradicionais e os seus filhos começam a perder acesso ao território onde nasceram; veem-se impedidos de nele habitar, destituídos da possibilidade de afirmar a sua identidade, de criar redes de vinculação, de perpetuar tradições comunitárias. A gentrificação é, por isso, uma morte silenciosa das gentes e das identidades coletivas.
Sobre isto, terá o executivo camarário alguma coisa a dizer? Naturalmente que não pois dela faz uso. Enquanto a velha estratégia do panem et circenses continuar a render eleições, tudo permanecerá — para eles — muito bem.







