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Terça-feira, Junho 23, 2026
OpiniãoO Congresso do Faz de Conta

O Congresso do Faz de Conta

Há dias em que a política portuguesa consegue superar a ficção. A semana passada foi um desses momentos. Na Assembleia da República, o chamado pacote laboral do Governo caiu com estrondo. Menos de vinte e quatro horas depois, no congresso do PSD, o ambiente parecia o de uma vitória épica. Em Portugal, perder uma votação parlamentar e receber uma ovação partidária já não é uma contradição, é apenas gestão de narrativa.

Luís Montenegro entrou no congresso como quem regressa de uma batalha gloriosa, apesar de ter deixado, poucas horas antes, o Código do Trabalho estendido no chão do Parlamento. É a alquimia moderna da política, transformar chumbo em ouro e derrotas em demonstrações de liderança. Uma habilidade que faria corar os melhores ilusionistas.

O episódio revelou algo muito mais profundo do que uma simples derrota legislativa. Demonstrou que a política portuguesa vive cada vez mais para dentro das suas bolhas partidárias. O Parlamento fala uma língua, os congressos falam outra. Enquanto os deputados contam votos, os aparelhos contam aplausos.

O chamado Jumbo legislativo acabou por embater na pista antes da descolagem. O Governo apresentou um pacote que classificava como essencial para aumentar a produtividade e flexibilizar o mercado laboral, mas esqueceu se do detalhe mais importante em democracia, os votos. Descobriu, tarde demais, que maioria relativa continua a significar… relativa.

Curiosamente, quem saiu mais fragilizado talvez nem tenha sido o Governo, mas a própria credibilidade da negociação política. Durante dias vendeu se ao país a ideia de entendimentos sólidos, conversas maduras e pontes construídas. No momento decisivo, percebeu se que muitas dessas pontes eram insufláveis.

Depois veio o congresso. A liturgia partidária fez o resto. Os discursos transformaram um revés numa demonstração de força. A renovação do mandato surgiu embrulhada em palavras como estabilidade, confiança e determinação. Tudo muito respeitável, não fosse o pequeno pormenor de a realidade parlamentar ter acabado de escrever precisamente o contrário.

Mas talvez seja esta a nova definição de resiliência política, perder hoje, celebrar amanhã e convencer os militantes de que ambos os acontecimentos fazem parte do mesmo plano estratégico.

E enquanto Lisboa distribui narrativas, cá por baixo, nos concelhos, tudo permanece espantosamente igual. Também em Paços de Ferreira continua a desfilar a habitual procissão dos profissionais da fotografia institucional. São sempre os mesmos rostos, as mesmas palmadinhas nas costas, os mesmos discursos reciclados, como se a renovação política consistisse apenas em mudar a gravata ou o enquadramento da fotografia.

Há décadas que alguns confundem serviço público com permanência vitalícia no palco. Mudam os cartazes, mudam as cores dos panfletos, mudam os slogans. Os protagonistas, esses, parecem ter um contrato de arrendamento perpétuo com o poder. E quem ousa aparecer de fora do círculo rapidamente descobre que o mérito continua a ser um péssimo cartão de apresentação quando entra em conflito com as velhas fidelidades.

No fundo, talvez esta seja a grande metáfora da política portuguesa. Uns aplaudem derrotas porque controlam os aplausos. Outros sobrevivem eleitoralmente porque controlam as estruturas locais. E os cidadãos assistem ao espetáculo, pagando o bilhete através dos impostos.

No dia em que os partidos celebrarem menos os congressos e ouvirem mais o Parlamento, e sobretudo o país, talvez deixemos de assistir a este teatro onde cada derrota é apresentada como uma vitória moral.

Até lá, continuaremos a viver na República onde um chumbo pode ser apenas um intervalo antes da salva de palmas.

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