Há doze anos, o Partido Socialista conseguiu aquilo que parecia improvável em Paços de Ferreira. Derrotar um PSD que governava o concelho há mais de três décadas. Foi uma vitória construída com inteligência política, aproveitando o desgaste natural de um longo ciclo de poder e um contexto nacional particularmente desfavorável para os sociais-democratas. O PS soube interpretar o momento, alargar a sua base de apoio e apresentar uma candidatura capaz de captar eleitores muito para além das fronteiras tradicionais do partido.
A estratégia resultou. Mas vencer eleições e construir uma cultura política sólida não são necessariamente a mesma coisa.
Olhando para os últimos doze anos, a principal marca da governação socialista não parece ter sido apenas a obra realizada ou os projetos concretizados. A característica mais evidente deste ciclo foi a concentração de poder. Humberto Brito assumiu simultaneamente a liderança da Câmara Municipal e da estrutura partidária local, uma opção que muitos interpretaram como sinal de força e estabilidade. Com o passar dos anos, porém, tornou-se evidente que esse modelo tinha custos.
Quando a liderança partidária e o poder executivo se concentram na mesma pessoa, o espaço para o debate interno tende a diminuir. A crítica passa a ser encarada com desconfiança e a renovação de quadros torna-se mais difícil. Não é por acaso que várias figuras que durante anos tiveram influência no PS local acabaram por se afastar. Algumas fizeram-no discretamente, outras em silêncio absoluto. Mas o resultado foi o mesmo. Um partido progressivamente mais fechado sobre si próprio.
O mais curioso é que, com a saída de Humberto Brito, muitos esperavam uma mudança de rumo. Esperavam uma maior abertura interna, uma nova geração de protagonistas e uma separação entre a liderança partidária e a presidência da Câmara. Em vez disso, o modelo manteve-se praticamente inalterado. Paulo Ferreira assumiu a presidência da autarquia e a liderança do partido, perpetuando uma lógica que já tinha dado sinais de desgaste.
E os sinais começam a ser cada vez mais difíceis de ignorar. O PS continua a ser a principal força política do concelho, mas já não demonstra a mesma capacidade mobilizadora de outros tempos. Perdeu influência em várias freguesias, viu diminuir a sua margem política e começa a sentir um eleitorado menos disponível para aceitar discursos triunfalistas sem questionar os resultados.
O caso da desagregação das freguesias é um exemplo disso mesmo. A questão foi apresentada como uma grande bandeira política e uma causa central para o concelho. Contudo, os resultados ficaram aquém das expectativas criadas, deixando a sensação de que a narrativa política acabou por ser maior do que os resultados efetivamente alcançados.
Ao mesmo tempo, a governação municipal parece cada vez mais assente numa lógica de comunicação permanente. Entre anúncios, apresentações, vídeos promocionais, inaugurações, eventos e iniciativas públicas, cria-se frequentemente a sensação de que a gestão da imagem se tornou tão importante quanto a gestão dos problemas concretos. Mas os eleitores estão hoje mais exigentes. Querem respostas para questões como a habitação, a mobilidade, os custos dos serviços públicos, o ordenamento urbano ou a gestão dos recursos municipais. Querem soluções concretas e não apenas boas campanhas de comunicação.
Naturalmente, todos os executivos cometem erros. Isso faz parte da vida democrática. A diferença está na forma como reagem às críticas. E é precisamente aqui que surge outra fragilidade deste ciclo político. Depois de tantos anos de poder quase incontestado, instalou-se uma cultura pouco habituada ao contraditório. Muitas vezes, quem questiona é tratado como adversário e quem discorda é rapidamente catalogado como alguém que está contra o concelho. No entanto, a democracia não vive da unanimidade. Vive do debate, da fiscalização e da divergência.
Paradoxalmente, o maior problema do PS pode nem sequer ser a oposição. O PSD continua sem conseguir afirmar uma alternativa suficientemente forte e mobilizadora. Apesar de liderar a oposição institucional, raramente consegue transformar as suas críticas num projeto capaz de entusiasmar os eleitores. O Chega, por seu lado, começa a crescer localmente e a aproveitar o espaço deixado pelo descontentamento de alguns setores da população, mas ainda está longe de representar uma alternativa de governo.
O verdadeiro desafio para o PS parece ser outro. O desgaste natural do poder e a crescente desconfiança dos cidadãos em relação às estruturas partidárias. Cada vez mais pessoas olham para os partidos como organizações fechadas, controladas pelos mesmos protagonistas e pouco abertas à participação de novas vozes. Quando essa perceção se instala, a abstenção aumenta e a ligação entre eleitos e eleitores enfraquece.
É por isso que a questão central não é saber se o PS ganhará ou perderá as próximas eleições. A questão é perceber se continua a convencer os eleitores pelas suas ideias e pela sua ação política ou se continua a vencer apenas porque a oposição ainda não conseguiu convencer mais ninguém.
A história política está cheia de exemplos de partidos que chegaram ao poder prometendo mudança e que, anos mais tarde, acabaram por reproduzir os mesmos vícios que criticavam nos seus adversários. A ironia é que o PS de Paços de Ferreira corre hoje precisamente esse risco.
E talvez seja essa a pergunta que começa a pairar sobre o concelho. Estaremos perante a consolidação de um projeto político ou perante os primeiros sinais de desgaste de um ciclo que julgava ser eterno?







