Confesso que ando preocupado.
Não com a PFR Invest. Essa já nos habituou a ser um tema que aparece de tempos a tempos, como aquelas obras públicas que nunca acabam. Estou preocupado, isso sim, com o novo presidente do PSD.
Alguém o viu?
Quando foi eleito, muitos acreditaram que vinha aí uma lufada de ar fresco, eu era um deles. Um líder novo, uma geração diferente, alguém disposto a fazer aquilo de que a política tanto precisa: dizer o que pensa, fazer perguntas difíceis e, se fosse preciso, incomodar quem, durante anos, se habituou a viver confortavelmente dentro do partido.
Houve quem imaginasse um presidente de mangas arregaçadas.
Aparentemente, antes de começar verdadeiramente a liderar, alguém o chamou a uma sala reservada. Não para lhe entregar um plano de ação, mas um velho manual de sobrevivência política.
Na primeira página lia-se: “Não mexas muito nisso.” Na segunda: “A PFR Invest? Fala baixinho.” Na terceira: “O silêncio também é uma estratégia.”
E, quando terminou a leitura, conta a lenda que lhe colocaram sobre os ombros o famoso manto da calma e lhe ofereceram o lendário travesseiro do descanso. Dizem até que o conjunto vinha acompanhado de uma chávena de chá de camomila e de uma recomendação paternal: “Ainda és novo… deixa isso para quem sabe como estas coisas funcionam.”
Quem serão esses sábios? Talvez os mesmos de sempre.
Os que raramente aparecem à frente das câmaras, mas que continuam a mover discretamente os cordelinhos da política local. Aqueles que não precisam de ocupar cargos para continuarem a definir o ritmo da música. Os verdadeiros maestros da prudência.
Resultado?
Aquilo que prometia ser uma oposição firme parece ter descoberto uma nova modalidade política: a oposição contemplativa.
Observa. Reflete. Medita. E, sobretudo… espera.
Entretanto, a PFR Invest continua ali, imóvel, como um elefante no meio da sala. Todos o veem. Todos passam por ele. Mas ninguém lhe toca. A esta altura, já deve fazer parte do património municipal.
É pena.
Porque a renovação de um partido não acontece quando muda o nome do presidente. Acontece quando muda a forma de fazer política. Quando existe independência para questionar. Quando a lealdade aos cidadãos vale mais do que a lealdade aos silêncios herdados.
Mas os velhos mestres continuam em excelente forma. Durante anos chamaram-lhes os “Velhos do Restelo”. Talvez o nome esteja errado. São, afinal, especialistas em engenharia política. Conseguem pegar num dirigente cheio de energia e devolvê-lo em modo “não vale a pena criar ondas” antes mesmo de ele aquecer a cadeira.
É um talento raro. Transformam entusiasmo em cautela. Coragem em prudência. E prudência… em silêncio.
Naturalmente, ainda vai a tempo de provar que manda mais do que aqueles que lhe sopram ao ouvido. Que lidera o partido e não apenas o representa. Que os cordelinhos da política local já não são puxados pelos mesmos de sempre. Porque os cidadãos esperavam uma renovação. Não esperavam um presidente em modo de suspensão.
Paços de Ferreira não precisa de uma liderança autorizada a falar apenas quando o assunto é confortável. Precisa de alguém que perceba que a verdadeira liderança começa precisamente onde termina o conforto dos aparelhos partidários.
Até lá, continuará a pairar uma dúvida incómoda. Quem é, afinal, o verdadeiro presidente do PSD de Paços de Ferreira?







