Paços de Ferreira é conhecido nacionalmente como a “Capital do Móvel”, um polo industrial de grande relevância que se destaca sobretudo no setor do mobiliário e na indústria têxtil, exportando e competindo internacionalmente. Contudo, quando comparado com os concelhos vizinhos do Vale do Sousa, como Lousada, Paredes ou Santo Tirso, percebe-se que poderia ambicionar mais do que manter a tradição produtiva, há espaço para se tornar um núcleo estratégico de inovação, retenção de talento e desenvolvimento sustentável.
O concelho apresenta sinais positivos de modernização. A Câmara Municipal aprovou 98 projetos para os próximos dez anos, envolvendo mais de 90 milhões de euros de investimento, muitos ligados à mobilidade, inovação digital, descarbonização e ao setor do mobiliário. Recentemente, foi aprovada a criação de um bairro comercial digital no centro da cidade, com o objetivo de modernizar o comércio local, atrair empreendedores e ligar a tradição fabril à era digital. Estas iniciativas representam uma visão ambiciosa, dotar Paços de Ferreira de infraestruturas de última geração, tornando-o mais competitivo e sustentável. Se bem executadas, poderão fixar empresas inovadoras, startups e novos modelos de negócio, criando um ecossistema empresarial moderno e dinâmico.
Apesar de um tecido empresarial robusto, o concelho enfrenta a fuga dos jovens. Dados recentes indicam uma perda significativa da população até aos 35 anos, refletindo não apenas a procura de emprego, mas também a ausência de projetos estruturantes que incentivem os jovens a permanecer ou regressar. A instalação de um polo universitário em Paços de Ferreira seria estratégica. Um campus, técnico ou politécnico, poderia atrair estudantes, fomentar investigação na indústria local e criar um ciclo virtuoso de educação, emprego e inovação. Sem esta aposta, os jovens talentosos acabam por estudar e trabalhar fora, enfraquecendo o tecido demográfico e empresarial do concelho.
A modernização passa também por resolver questões de mobilidade urbana. Um plano de mobilidade ambicioso seria essencial para melhorar a circulação, o estacionamento e a segurança, além de reforçar as ligações entre os vários núcleos do concelho. A reativação da Linha Ferroviária do Vale do Sousa surge como uma oportunidade estratégica para conectar o concelho ao Porto e a outras regiões, promovendo alternativas sustentáveis de transporte e facilitando a vida de empresas, estudantes e famílias.
Os partidos políticos têm um papel central neste cenário. O PSD, na oposição, tem criticado a gestão socialista e sublinhado a necessidade de maior dinamismo e investimento estrutural, enquanto o executivo socialista destaca-se pelos fundos comunitários captados e pelo planeamento de projetos de modernização. Contudo, críticas à implementação parcial de algumas promessas estruturais e à recente reorganização das freguesias demonstram que, sem visão de longo prazo, muitos investimentos podem não gerar o impacto desejado.
Se Paços de Ferreira pretende não apenas sobreviver, mas liderar no Vale do Sousa, é urgente apostar na retenção dos jovens, na educação superior, na inovação industrial e na mobilidade urbana. Um polo universitário, focado nas áreas estratégicas da economia local, poderá ser decisivo para fixar talento e gerar desenvolvimento. A mobilidade e as ligações ferroviárias são essenciais para integrar o concelho na região e garantir sustentabilidade. Ao mesmo tempo, é indispensável que todos os partidos assumam responsabilidade e compromisso com projetos de longo prazo, para que Paços de Ferreira possa deixar de ser apenas a Capital do Móvel e tornar-se também um motor de inovação, retenção de talento e desenvolvimento sustentável para toda a região.
No fim, a pergunta que fica é clara: será que Paços de Ferreira vai continuar a olhar para o futuro apenas pelo retrovisor ou terá coragem de se tornar o concelho que todos sabemos que pode ser?




