OpiniãoQuando 51 militantes decidem falar pelo PSD de Paços de Ferreira

Quando 51 militantes decidem falar pelo PSD de Paços de Ferreira

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As recentes eleições internas para a liderança nacional do Partido Social Democrata deixaram em Paços de Ferreira um dado que merece reflexão. Segundo a informação divulgada pela própria estrutura local, participaram apenas 51 militantes, registando-se ainda três votos em branco.

À primeira vista, alguns poderão desvalorizar o número, argumentando que se tratava de uma lista única e que, por isso, a mobilização seria inevitavelmente menor. Contudo, essa explicação, embora conveniente, não é suficiente para dissipar as dúvidas que os números levantam.

As eleições para a liderança nacional de um partido representam um dos momentos mais importantes da sua vida democrática. É nesse acto que os militantes legitimam a orientação política da organização, validam estratégias futuras e demonstram o seu grau de envolvimento no projecto partidário. Quando apenas meia centena de pessoas participa nesse processo, a questão deixa de ser eleitoral para passar a ser estrutural.

A realidade é que cinquenta e um votantes constituem um universo demasiado reduzido para uma concelhia que procura afirmar-se politicamente num dos maiores municípios do distrito do Porto. Mesmo admitindo que a inexistência de disputa interna tenha retirado entusiasmo ao acto eleitoral, continua a ser difícil ignorar a dimensão da abstenção implícita que estes números sugerem.

Mais curioso ainda é o facto de existirem três votos em branco. Numa eleição sem oposição, o voto em branco assume frequentemente um significado político particular. Não altera o resultado, mas constitui uma forma discreta de demonstrar distância, desconforto ou simples desinteresse relativamente ao processo em curso. São apenas três votos, dir-se-á. Mas numa assembleia de cinquenta e um participantes, representam uma percentagem que não pode ser considerada irrelevante.

A pergunta que se impõe é simples. Onde estavam os restantes militantes?

Se a participação ficou limitada aos membros da Comissão Política, alguns autarcas, dirigentes da JSD e ao círculo habitual de activistas partidários, então a conclusão é inevitável. Existe uma enorme distância entre a estrutura formal do partido e a sua capacidade efectiva de mobilização.

Mais preocupante do que a ausência de competição eleitoral é a aparente ausência de entusiasmo. Um partido político não vive apenas de eleições autárquicas, de comunicados ou de publicações nas redes sociais. Vive também da participação activa dos seus militantes nos momentos que definem o rumo da organização. Quando esses momentos passam quase despercebidos à maioria dos filiados, há um problema que não pode ser ignorado.

Existe ainda uma ironia difícil de contornar. Os partidos apelam constantemente à participação dos cidadãos na vida democrática, lamentam a abstenção crescente e denunciam o afastamento dos eleitores da política. Porém, quando chega a hora de mobilizar aqueles que já deram o passo adicional de se filiarem, os resultados nem sempre são animadores.

Naturalmente, ninguém espera filas à porta das sedes partidárias para votar em eleições internas. Mas espera-se, pelo menos, um sinal de vitalidade compatível com a relevância que os próprios partidos atribuem aos seus processos democráticos.

Os cinquenta e um votos registados em Paços de Ferreira não colocam em causa a legitimidade do resultado nacional. Colocam, isso sim, uma questão mais incómoda para a estrutura local. Até que ponto existe uma verdadeira comunidade militante activa e mobilizada? E até que ponto a actividade partidária se encontra concentrada num grupo cada vez mais reduzido de dirigentes e colaboradores habituais?

Porque, por vezes, os números mais pequenos são aqueles que levantam as perguntas maiores. E, neste caso, cinquenta e um pode muito bem ser um desses números.

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