Há momentos em que uma terra revela mais sobre si própria através daquilo que acontece fora dos gabinetes políticos do que através daquilo que é dito dentro deles. Paços de Ferreira parece atravessar precisamente um desses momentos.
Nos últimos dias, a Associação Empresarial de Paços de Ferreira iniciou um novo ciclo com a eleição de Cláudio Pereira para a presidência da direção. Quase em simultâneo, o Futebol Clube de Paços de Ferreira viveu uma das noites mais turbulentas dos últimos tempos, com os associados a decidirem pela destituição da direção e pela criação de uma comissão provisória que conduzirá o clube até à realização de novas eleições. São realidades diferentes, naturalmente. Uma representa o tecido empresarial, outra representa uma instituição desportiva com uma dimensão emocional e social que ultrapassa largamente as quatro linhas. Mas existe entre ambas uma característica que merece ser sublinhada. Há movimento. Há decisão. Há confronto. Há pessoas dispostas a assumir responsabilidades e a colocar o seu nome perante os associados.
E depois há a política.
Ou, pelo menos, aquilo que em Paços de Ferreira começa a parecer uma versão bastante particular da política.
O PSD reuniu recentemente os seus eleitos autárquicos, aproximadamente um ano depois das últimas eleições. Reunir é importante. Refletir é indispensável. Fazer balanços é saudável. O problema surge quando a própria reunião passa a ser apresentada como acontecimento político, como se a existência de uma reunião fosse, por si só, uma estratégia. Talvez estejamos perante uma nova corrente de pensamento político, o minimalismo partidário. Falar pouco, aparecer pouco, propor pouco e, assim, reduzir significativamente a possibilidade de alguém perguntar o que se pretende fazer.
É uma estratégia intelectualmente simples e politicamente confortável. Só existe um pequeno problema. A política não se faz apenas dentro das estruturas partidárias. Faz-se na rua, nas empresas, nas associações, nas escolas, nas instituições, nas famílias e nos problemas concretos das pessoas. Faz-se quando alguém apresenta uma proposta, quando alguém questiona uma decisão, quando alguém denuncia uma falha, quando alguém apresenta uma alternativa. Faz-se, sobretudo, quando existe alguma coisa para dizer.
E é precisamente essa sensação de ausência que começa a ser difícil ignorar.
O PSD, pela sua dimensão e pelo seu passado político no concelho, tem uma responsabilidade acrescida. Não basta existir enquanto estrutura. É necessário existir enquanto alternativa. Não basta ter eleitos. É necessário que esses eleitos tenham uma agenda política visível. Não basta reunir. É preciso que dessas reuniões resultem ideias, propostas e intervenção pública. Porque uma oposição que fala apenas para dentro corre o risco de se transformar numa espécie de círculo fechado onde todos conhecem as posições de todos, enquanto quase ninguém fora da sala sabe exatamente o que está a ser discutido.
E isso não é oposição. É administração interna.
O mesmo raciocínio pode ser aplicado ao Chega, embora por razões e circunstâncias diferentes. Um partido que pretende representar uma parte do eleitorado não pode aparecer apenas quando existe uma polémica suficientemente grande para justificar uma publicação nas redes sociais. A democracia local não funciona por episódios. Existe todos os dias. As pessoas não suspendem os seus problemas até à próxima campanha eleitoral. Continuam a procurar emprego, a pagar rendas, a levar os filhos à escola, a enfrentar dificuldades no acesso à saúde, a abrir negócios, a fechar negócios, a envelhecer e a tentar perceber que futuro podem construir no próprio concelho.
A política deveria estar presente nesse espaço. Entretanto, curiosamente, a sociedade civil parece estar a demonstrar mais capacidade de movimento do que algumas estruturas partidárias.
Na Associação Empresarial começa um novo ciclo. No Paços de Ferreira abriu-se um processo de ruptura e de reconstrução. São processos que podem correr bem ou mal. Nenhuma mudança garante resultados. Nenhum novo presidente traz consigo uma fórmula mágica. Nenhuma comissão provisória resolve automaticamente os problemas de uma instituição.
Mas há uma diferença fundamental. Essas instituições estão a discutir o seu futuro. E quando uma instituição discute verdadeiramente o futuro, há sempre alguma coisa em jogo. Na política local, pelo contrário, começa a existir uma sensação desconfortável de que demasiadas vezes se discute a necessidade de discutir. É quase uma espécie de política contemplativa. Observa-se. Analisa-se. Reúne-se. Produzem-se algumas declarações. E aguarda-se.
Aguarda-se pelo próximo problema. Aguarda-se pela próxima polémica. Aguarda-se pelo próximo ciclo eleitoral. Só que os ciclos eleitorais têm uma característica inconveniente. Não esperam por ninguém.
E os eleitores também não.
Um partido pode passar meses ou anos a falar para dentro, mas o eleitorado continua a construir as suas próprias opiniões cá fora. E essas opiniões não são construídas apenas pelos partidos. São construídas pelo que as pessoas veem, pelo que vivem e, sobretudo, pelo que deixam de ouvir. É aqui que reside o verdadeiro perigo para qualquer oposição. Não é perder uma votação. É tornar-se irrelevante antes de chegar à votação. Uma oposição não precisa de dizer sempre não. Aliás, uma oposição que diz sempre não acaba por ser tão previsível como uma maioria que diz sempre sim. Mas precisa de perguntar. Precisa de fiscalizar. Precisa de apresentar alternativas. Precisa de reconhecer o que é bem feito. Precisa de denunciar aquilo que entende estar mal. Precisa, acima de tudo, de ter uma visão própria para o concelho.
E essa visão não pode ficar guardada numa gaveta à espera das próximas eleições autárquicas. Paços de Ferreira precisa de discutir o futuro da sua indústria, a competitividade do comércio, a habitação, a mobilidade, a saúde, a juventude, o envelhecimento, a educação e a capacidade de atrair e fixar pessoas. Precisa de discutir como aproveitar os investimentos extraordinários que estão a acontecer sem cair na ilusão de que dinheiro europeu é sinónimo automático de desenvolvimento.
Precisa de discutir o que acontece depois. E para isso é necessária política. Não política de gabinete. Não política de fotografia. Não política de reunião. Política a sério.
Aquela que incomoda. Aquela que obriga a responder. Aquela que coloca perguntas difíceis quando seria mais cómodo permanecer em silêncio. Talvez seja essa a grande ironia do momento político de Paços de Ferreira.
Enquanto empresários e associados discutem lideranças, enquanto os sócios de um clube decidem o seu futuro e enquanto várias instituições procuram soluções para os seus problemas, alguns partidos parecem ter descoberto o conforto extraordinário de existir sem se fazerem particularmente notar.
É uma posição confortável. Só tem um inconveniente. A política que não ocupa espaço deixa esse espaço disponível para alguém ocupar. E a história política ensina-nos que os espaços vazios raramente permanecem vazios durante muito tempo. Paços de Ferreira não precisa de mais ruído. Também não precisa de uma oposição permanentemente zangada.
Precisa de ideias. Precisa de debate. Precisa de contraditório. Precisa de partidos que compreendam que representar pessoas não significa apenas falar com militantes e eleitos. Significa falar com o concelho. Porque uma estrutura partidária pode continuar perfeitamente organizada por dentro e, simultaneamente, estar politicamente ausente por fora. E talvez seja essa a pergunta que alguém devesse fazer, não numa reunião interna, mas na rua.
Onde estão as ideias? Onde estão os projetos? Onde está a alternativa? Onde está a política?
Porque Paços de Ferreira continua a mexer-se.
As empresas mexem-se. As associações mexem-se. Os clubes mexem-se. Os cidadãos mexem-se. Só seria preocupante se aqueles que querem influenciar o futuro do concelho fossem os únicos a permanecer parados. E, neste momento, talvez seja precisamente isso que começa a merecer discussão.







