Há uma pergunta que começa a ser impossível de evitar: o que está a acontecer a Paços de Ferreira?
Não é uma pergunta de saudosismo, nem uma tentativa de romantizar um passado que já não volta. É uma pergunta sobre identidade, estratégia e futuro. Porque Paços de Ferreira continua a ter empresas, indústria, gente trabalhadora e capacidade empreendedora. O que parece estar a perder é outra coisa: a capacidade de transformar aquilo que construiu em identidade, conhecimento e ambição.
Durante décadas, soubemos exactamente quem éramos. Éramos a terra do mobiliário, da madeira, das fábricas familiares e dos homens e mulheres que fizeram deste sector uma verdadeira cultura económica. E éramos, sobretudo, a Capital do Móvel.
A Feira Agro-Industrial começou em 1984 e, em 1994, nasceu a feira no então Parque de Exposições da Capital do Móvel. Durante anos, aquele espaço foi muito mais do que um recinto de exposições. Era uma montra de Paços de Ferreira para o país. Famílias deslocavam-se ao concelho, empresários procuravam negócio, a restauração e o comércio beneficiavam e os pacenses sentiam orgulho numa marca que se tornou reconhecida muito para além das fronteiras do concelho.
A marca Capital do Móvel continua, felizmente, a existir. Mas há aqui uma ironia que merece reflexão: hoje, a feira viaja para fora de Paços de Ferreira. Em 2024 esteve na Alfândega do Porto e em 2025 no Pavilhão Carlos Lopes, em Lisboa.
A marca criada para trazer Portugal a Paços passou a precisar de sair de Paços para chegar a Portugal.
Não será isto motivo suficiente para uma profunda reflexão estratégica?
Ao longo dos anos também ouvimos falar de clusters, universidades, cursos especializados, centros tecnológicos, investigação, inovação e ligação entre empresas e conhecimento. Tudo fazia sentido. Paços tinha aquilo que muitos territórios europeus gostariam de possuir: uma concentração empresarial extraordinária num sector específico, conhecimento acumulado durante gerações e uma marca reconhecida.
Mas o antigo Centro Tecnológico do Mobiliário acabou por falir em 2004. Décadas depois, voltamos a falar de estruturas de inovação, como o INOMMOB e o HABITECH.
Oxalá desta vez seja diferente.
Mas não podemos deixar de perguntar: quantas vezes pode um território anunciar o futuro antes de começar efectivamente a construí-lo?
O mesmo sentimento surge quando olhamos para o Futebol Clube de Paços de Ferreira.
Houve um tempo, não muito distante, em que o Paços entrava em campo contra os três grandes de cabeça levantada. Em 2012/13 terminou a Primeira Liga em terceiro lugar e chegou ao play-off da Liga dos Campeões. Disputou a Europa e levou o nome de Paços de Ferreira muito além do futebol.
Aquele Paços não era apenas um clube. Era uma extensão da identidade do concelho.
Hoje, está na Liga 3 e começou a actual temporada com três derrotas consecutivas.
Como se chegou aqui?
Não é apenas uma questão de treinador, jogadores ou direcção. É uma questão de projecto. Que clube queremos? Que modelo de gestão? Que política de formação? Que sustentabilidade financeira? Que ambição?
E aqui surge uma pergunta que vale tanto para o futebol como para o próprio concelho: onde está a estratégia de longo prazo?
Porque Paços de Ferreira parece sofrer do mesmo problema em diferentes áreas: excelentes iniciativas, grandes ambições, pessoas competentes e, demasiadas vezes, pouca continuidade.
A política local não pode viver eternamente de quatro anos de cada vez.
Uma feira não se constrói para um mandato. Uma indústria não se reinventa numa campanha eleitoral. Uma universidade não nasce de um protocolo. Um centro tecnológico não se consolida numa cerimónia. E um clube não recupera identidade mudando de treinador a cada crise.
É preciso visão.
E, sobretudo, continuidade.
Seria fácil encontrar um culpado. Culpar a Câmara, culpar associações empresariais, culpar empresários, culpar direcções do Paços ou culpar partidos. Mas a realidade é mais incómoda: a responsabilidade é colectiva e atravessa diferentes protagonistas e diferentes épocas políticas.
A Câmara Municipal tem responsabilidade na estratégia territorial. As associações empresariais têm responsabilidade na defesa e valorização da actividade económica. Os empresários têm responsabilidade na modernização. As direcções do Paços têm responsabilidade na sustentabilidade do clube. E os cidadãos têm uma responsabilidade que também não pode ser ignorada: exigir mais.
Porque talvez tenhamos aceitado demasiado facilmente a política do “está previsto”, “estamos a trabalhar”, “vai avançar” e “será criado”.
É uma espécie de futuro permanente.
O projecto está sempre a chegar.
A universidade está sempre a chegar.
O cluster está sempre a chegar.
A inovação está sempre a chegar.
Só há uma coisa que chega invariavelmente a horas: a próxima eleição.
Paços de Ferreira não precisa de voltar aos anos 80 ou 90. Isso seria impossível e até pouco inteligente. O mundo mudou. A indústria mudou. O consumidor mudou. A tecnologia mudou.
Precisamos, isso sim, de recuperar a ambição que existia nessa época e aplicá-la ao presente.
A Capital do Móvel do futuro não pode ser apenas uma feira de mobiliário. Tem de ser conhecimento, design, tecnologia, investigação, formação, internacionalização e criação de valor.
E o Paços do futuro não pode viver apenas da memória de ter chegado à Europa. Tem de construir um clube sustentável, profissional, formador e ambicioso.
Talvez, afinal, o problema não seja termos perdido a nossa identidade.
Talvez o problema seja termos deixado de discutir seriamente qual queremos que seja a nossa próxima identidade.
Porque uma terra não perde a identidade quando deixa de ser aquilo que era.
Perde-a quando deixa de saber aquilo que quer ser.
E talvez seja exactamente aí que Paços de Ferreira se encontra hoje: entre o orgulho legítimo de tudo aquilo que já conseguiu e a incómoda ausência de uma visão suficientemente ambiciosa para aquilo que ainda pode conseguir.
O passado já demonstrou que somos capazes.
Agora falta saber se ainda temos coragem para voltar a pensar em grande.







