OpiniãoO Estado da rua e a rua do Estado

O Estado da rua e a rua do Estado

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Portugal discute as máscaras dos manifestantes, os bastões da polícia e as declarações dos ministros. Entretanto, a pergunta que leva tanta gente à rua continua à espera de resposta. Como pode alguém trabalhar e não conseguir pagar uma casa?

As reivindicações existem e são concretas. Mais habitação pública, rendas acessíveis, recuperação de imóveis devolutos e contestação às alterações ao arrendamento. Podemos discordar das soluções propostas, exigir contas e questionar a sua eficácia. Fingir que estas pessoas protestam sem motivo é fugir ao problema.

Mas uma causa justa não absolve todos os comportamentos. Quem vandaliza património ou agride polícias deve responder pelos seus atos. Destruir aquilo que pertence a todos é uma estranha maneira de defender o bem comum. E a esquerda perde autoridade quando encontra desculpas para os excessos que condenaria nos adversários.

Também não aceito que se transforme uma geração inteira num bando de arruaceiros. A PSP identificou possíveis ligações de um grupo a meios radicais, mas reconheceu não conseguir confirmá-las formalmente. A suspeita exige investigação, não uma condenação coletiva.

Os rostos tapados merecem perguntas, sobretudo quando afastam cidadãos que partilham a mesma preocupação. Contudo, uma máscara não prova violência, tal como uma farda não garante que toda a intervenção foi adequada. Defender a polícia implica exigir responsabilidade a quem agride agentes e escrutínio sobre a força utilizada.

Quanto aos brasileiros e a outros imigrantes, convém resistir à facilidade do julgamento pelo sotaque. Não encontrei dados fiáveis sobre a sua proporção nos protestos. Quem vive e trabalha em Portugal também enfrenta as rendas portuguesas. A nacionalidade não determina o caráter pacífico ou violento de uma pessoa.

E os partidos? Não podemos afirmar que todos vivem para os cargos e os “tachos”. Podemos exigir que demonstrem o contrário através de resultados. A preocupação com os portugueses mede-se pelas respostas que chegam às suas vidas, não pela indignação que chega aos telejornais.

Ao Governo exige-se capacidade para resolver. À oposição, memória sobre as suas próprias responsabilidades. Aos manifestantes, propostas e respeito pelo espaço comum. À polícia, firmeza com critério.

O mais inquietante é a possibilidade de todos ganharem alguma coisa com o confronto, menos quem precisa de casa. Uns exibem autoridade, outros colecionam indignação, alguns conquistam protagonismo.

E o cidadão continua à procura de um lugar onde viver, enquanto os partidos parecem encontrar sempre um lugar onde ficar.

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