OpiniãoPaços em Festa, Jovens em Trânsito

Paços em Festa, Jovens em Trânsito

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Paços de Ferreira tem um fenómeno político que merece ser estudado. Chama-se Júlio Morais. Oficialmente, é vereador do Desenvolvimento Económico, da Juventude, do Turismo, da Cultura, do Desporto, das Relações Internacionais e de mais uma série de áreas fundamentais para o futuro do concelho. Na prática, olhando para as redes sociais da Câmara, parece sobretudo o diretor artístico permanente das festas populares do concelho.

Não há arraial demasiado pequeno, cartaz demasiado modesto ou palco demasiado discreto para escapar à sua presença. Se houver música, lá está. Se houver uma inauguração, aparece. Se houver uma fotografia para publicar, é quase garantido que estará na primeira fila. Há quem diga que o homem tem o dom da ubiquidade. Outros suspeitam que possui um GPS programado para detetar foguetes a dezenas de quilómetros de distância.

Nada contra as festas. Antes pelo contrário. As festas são importantes, unem as pessoas, preservam tradições e dão vida às freguesias. O problema começa quando a principal estratégia visível para um concelho parece resumir-se a uma agenda permanente de animação.

Porque, enquanto Júlio Morais percorre o circuito das festas, os jovens percorrem o caminho para a saída do município.

E aqui está a ironia que ninguém parece querer discutir. O vereador da Juventude assiste à partida de uma geração inteira. O vereador do Desenvolvimento Económico vê os mais qualificados procurarem oportunidades noutros concelhos e noutros países. O vereador das Relações Internacionais está, involuntariamente, a promover relações internacionais através da emigração. Os únicos jovens que verdadeiramente conseguimos mobilizar em Paços de Ferreira são aqueles que entram num avião para sair daqui. Uns seguem para o Porto. Outros para Lisboa. Muitos para o estrangeiro. Todos levam consigo talento, capacidade, ambição e anos de investimento feitos pelas famílias e pela comunidade.

E, como se a ironia não fosse suficiente, até algumas das iniciativas dirigidas à juventude parecem seguir a mesma lógica. Organizam-se viagens para levar jovens pacenses a Lisboa, mas raramente se vê o mesmo empenho em trazer jovens de Lisboa ou de qualquer outro ponto do país para conhecer, estudar, trabalhar, investir ou viver em Paços de Ferreira. Estamos a financiar excursões de saída quando devíamos estar a criar estratégias de entrada. Em vez de promovermos o concelho como destino para talento, criatividade e empreendedorismo, parecemos especializados em mostrar aos nossos jovens onde ficam as oportunidades… fora daqui.

E a pergunta impõe-se: onde está a estratégia? Onde estão as medidas para atrair empresas inovadoras? Onde está o plano para captar investimento qualificado? Onde estão os incentivos para fixar jovens famílias? Onde estão as políticas capazes de fazer um jovem dizer: “Vou ficar em Paços de Ferreira porque aqui tenho futuro?”

A resposta é difícil de encontrar no meio de tantas fotografias.

Talvez porque uma estratégia séria demora anos a produzir resultados. Talvez porque atrair talento não rende tantas publicações no Facebook como a apresentação de um cartaz de festas. Talvez porque um plano de desenvolvimento económico não oferece a mesma quantidade de aplausos que uma cerimónia popular.

Mas a realidade é teimosa.

As festas acabam ao domingo. Os problemas ficam na segunda-feira. As luzes apagam-se. Os palcos desmontam-se. As fotografias desaparecem no algoritmo das redes sociais.

Mas os jovens continuam a partir.

E talvez esteja aí a grande falha da política local. Confundiu-se animação com desenvolvimento. Confundiu-se presença com liderança. Confundiu-se popularidade com visão.

Paços de Ferreira não precisa de menos festas. Precisa de mais futuro.

Precisa de criar razões para os jovens ficarem com a mesma intensidade com que cria motivos para sair à rua durante um fim de semana. Porque um concelho não se mede pelo número de cartazes apresentados nem pela quantidade de palcos visitados por um vereador.

Mede-se pela capacidade de manter os seus jovens, atrair talento e construir prosperidade.

E nesse palco, infelizmente, o espetáculo tem estado longe de encher a casa.

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