OpiniãoPaços de Ferreira não precisa de mais política. Precisa de mais escrutínio.

Paços de Ferreira não precisa de mais política. Precisa de mais escrutínio.

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Há uma pergunta que, de tempos a tempos, uma terra deve fazer a si própria. Estamos realmente a discutir o futuro do concelho ou limitamo-nos a assistir à sua gestão?

Paços de Ferreira chega ao final do verão de 2026 com uma realidade que não pode ser ignorada. Há investimento, há projetos financiados, há obras, há fundos europeus e há uma maioria política claramente legitimada nas urnas. São dezenas de milhões de euros associados ao PRR. É dinheiro público. É oportunidade. E, sobretudo, é responsabilidade. Mas é precisamente aqui que começa a verdadeira discussão. Porque uma democracia municipal não se mede apenas pelo número de obras inauguradas, pelos milhões anunciados ou pelas fotografias de cerimónia. Mede-se também pela capacidade de alguém perguntar quanto custou, porque foi feito assim, quanto falta executar, quais os resultados e quem será responsabilizado se aquilo que foi prometido não acontecer.

E é neste ponto que Paços de Ferreira merece uma reflexão séria.

O problema não é o Município fazer obra. O problema seria uma oposição aceitar que a existência de obra substitui o escrutínio da obra. O problema não é existirem milhões do PRR. O problema seria confundirmos financiamento europeu com mérito político automático. O problema não é uma maioria governar. É uma maioria governar sem encontrar, do outro lado, uma oposição suficientemente incómoda para fazer as perguntas que os cidadãos fariam se tivessem acesso a toda a informação.

O novo Centro de Saúde é um bom exemplo da dimensão do desafio. Falamos de um investimento de vários milhões de euros. Quando se movimentam recursos desta dimensão em nome dos cidadãos, a pergunta não pode ser apenas quando abre. Devemos perguntar o que mudou, que capacidade acrescentou, que serviços estarão efetivamente disponíveis, qual é o impacto esperado nos cuidados de saúde do concelho e quanto da promessa política se transformou em serviço público concreto.

É esta a diferença entre propaganda e política. E há outra questão que merece ser colocada.

Paços de Ferreira teve eleições autárquicas em 2025. O atual executivo recebeu uma maioria clara dos eleitores e tem, por isso, legitimidade democrática para governar. Mas uma maioria absoluta não é um cheque em branco. É uma responsabilidade acrescida. Quem governa tem legitimidade para decidir. Quem está na oposição tem a obrigação de fiscalizar. E quem está sentado nas bancadas da Assembleia Municipal tem uma responsabilidade ainda maior. Não deixar que os assuntos relevantes morram entre comunicados, redes sociais e discursos políticos pré formatados.

A próxima Assembleia Municipal será mais uma sessão ou será uma oportunidade para discutir aquilo que realmente interessa? Quanto dinheiro já entrou? Quanto foi efetivamente executado? Que obras estão atrasadas? Que compromissos foram cumpridos? Que compromissos foram adiados? Quanto custam as decisões tomadas? E, sobretudo, qual é a estratégia para Paços de Ferreira depois de desaparecer o dinheiro extraordinário do PRR?

Porque esse é talvez o debate que ainda fazemos pouco. O PRR é extraordinário. A governação municipal é permanente. Os milhões europeus podem financiar escolas, equipamentos, habitação e saúde. Mas não substituem uma estratégia económica. Não resolvem automaticamente o problema da habitação. Não criam, por si só, empregos qualificados. Não garantem que os jovens permaneçam no concelho. E não podem ser confundidos com desenvolvimento estrutural. Paços de Ferreira precisa de pensar para além da obra. Precisa de discutir indústria, comércio, mobilidade, habitação, saúde, envelhecimento, juventude, educação, segurança e a relação com os concelhos vizinhos. Precisa de perguntar que concelho queremos daqui a dez anos, e não apenas que fotografia queremos publicar amanhã. E precisa, sobretudo, de recuperar uma palavra que a política municipal parece por vezes esquecer. Escrutínio.

Não se trata de ser contra a Câmara. Não se trata de ser contra o PS. Não se trata de ser PSD, Chega, independente ou qualquer outra coisa. Trata-se de uma coisa muito mais simples e muito mais exigente. Ser cidadão.

Uma democracia saudável não precisa de uma oposição que diga sempre não.

Precisa de uma oposição que saiba dizer não quando deve, sim quando faz sentido e, acima de tudo, porquê. Porque governar é decidir. Mas numa democracia, governar também é explicar.

E talvez esteja na altura de Paços de Ferreira deixar de perguntar apenas quem ganhou as eleições e começar a perguntar algo muito mais importante.

Quem está, efetivamente, a cumprir a obrigação de nos prestar contas?

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