OpiniãoPortugal, o pantanal onde todos parecem ter botas limpas

Portugal, o pantanal onde todos parecem ter botas limpas

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Portugal entrou novamente naquele território pantanoso onde a política deixa de discutir soluções e passa a discutir quem tem mais lama nas botas.
O caso Luís Neves, a decisão de Luís Montenegro em mantê-lo no Governo e a moção de censura apresentada pelo Chega são apenas a superfície de um problema muito maior: a degradação da confiança dos portugueses nas instituições.
O Chega dispara. O Governo responde. O PS diz que não será responsável por uma crise política. E, algures entre Belém, São Bento e São Bento outra vez, o cidadão comum observa este espetáculo com a serenidade de quem já viu este filme demasiadas vezes.
A diferença é que agora já nem sabemos se estamos perante uma tragédia, uma comédia ou simplesmente mais um episódio da longa série “Portugal Explica, Mas Não Resolve”.
O mais preocupante não é existir polémica.
O mais preocupante é a normalização da polémica.
Um ministro pode errar. Um primeiro-ministro pode errar. Um deputado pode errar. Somos humanos. O que não pode ser normal é transformar cada suspeita numa guerra partidária, cada investigação numa arma política e cada explicação numa batalha de comunicação.
Porque a justiça deve investigar, a política deve escrutinar e os tribunais devem julgar.
Não devem ser os estúdios de televisão, o X ou o Facebook a substituir as instituições.
Mas também não vale pedir aos portugueses que confiem cegamente.
Confiança não se exige. Conquista-se.
E conquista-se com transparência, explicações claras e responsabilidade.
O Chega percebeu há muito uma coisa que os partidos tradicionais parecem continuar a aprender: a indignação vende.
Ventura aproveita o momento e transforma a polémica numa moção de censura. Politicamente, é compreensível. Afinal, oposição que não aproveita os erros do Governo estaria a praticar uma espécie de caridade política. A moção, contudo, deverá enfrentar dificuldades para passar, já que o PS garante que não será pela sua mão que haverá uma crise política.
Mas há aqui uma ironia.
Enquanto os partidos discutem quem tem razão, o país continua a ter problemas que não cabem numa conferência de imprensa.
Habitação cara. Saúde pressionada. Salários que não acompanham o custo de vida. Jovens sem perspectivas. Famílias a fazer contas até ao último euro.
E, perante isto, continuamos a assistir ao campeonato nacional da indignação política.
Cada partido apresenta-se como bombeiro enquanto segura discretamente uma caixa de fósforos.
Talvez seja esse o verdadeiro pantanal português.
Não é apenas a existência de casos, suspeitas ou conflitos.
É a sensação crescente de que ninguém assume verdadeiramente a responsabilidade pelo estado das coisas.
Todos têm uma explicação.
Todos têm um culpado.
Todos têm uma narrativa.
O que começa a faltar é aquilo que deveria ser mais simples:
responsabilidade.
Portugal não precisa de políticos perfeitos. Precisa de políticos que compreendam que exercer poder não significa estar acima do escrutínio.
E talvez esteja na altura de os portugueses deixarem de perguntar:
“Quem ganhou esta guerra política?”
E começarem a perguntar:
“Quem está realmente a trabalhar para que Portugal ganhe?”
Porque, neste pantanal, já há demasiados políticos preocupados em provar que têm as botas limpas.
O problema é que os portugueses começam a perceber que quase ninguém está preocupado em sair da lama.

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