OpiniãoPaços de Ferreira, o silêncio após a tempestade política

Paços de Ferreira, o silêncio após a tempestade política

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Vive-se em Paços de Ferreira um tempo de silêncio que não é sereno nem responsável. É um silêncio pesado, típico do pós-tempestade, depois de meses de ataques políticos, acusações públicas e confrontos verbais que marcaram o período após uma votação e uma Assembleia Municipal amplamente contestadas. O que deveria ter sido um momento de afirmação democrática acabou por deixar no ar um clima de desconfiança, ressentimento e desgaste institucional que hoje se traduz num verdadeiro inverno político.

A Assembleia Municipal de 23 de dezembro ficará, para muitos cidadãos atentos, como um dos momentos mais tristes da política local recente. Longe de dignificar o órgão máximo de representação democrática do concelho, assistiu-se a uma sessão que mais parecia um circo político, com exceção de algumas intervenções pontuais de deputados que ainda demonstraram sentido de responsabilidade e elevação. De resto, a atuação quer do presidente da Assembleia Municipal, quer do presidente da Câmara Municipal foi, no mínimo, lamentável. O tom adotado, os gestos, as interrupções constantes e a postura de confronto permanente deram a imagem de uma luta de galos, onde o objetivo parecia ser vencer o adversário político e não servir o interesse público.

Particularmente visível foi o comportamento do antigo presidente da Assembleia Municipal, agora líder de bancada, que não conseguiu esconder o ressentimento pela perda de poder. Esse recalcamento político, mal disfarçado, transpareceu em várias intervenções marcadas mais pela amargura do que pela construção de soluções. É sempre difícil aceitar a alternância democrática, mas é precisamente aí que se mede a estatura política de quem exerce cargos públicos.

Ainda mais grave foi o discurso em torno da postura democrática relativamente ao partido Chega e à sua representante eleita. Independentemente das concordâncias ou discordâncias ideológicas, os representantes do Chega foram eleitos democraticamente, com votos de cidadãos do concelho, e merecem o mesmo respeito institucional que qualquer outro eleito. Continuar a acusar, deslegitimar ou tratar como intrusos aqueles que resultaram de um ato eleitoral livre e democrático não é sinal de superioridade moral, mas sim de hipocrisia política. Quem reage dessa forma revela mais intolerância do que aquela que diz combater.

Curiosamente, aqueles que mais falam em democracia, respeito e valores republicanos são, muitas vezes, os primeiros a falhar quando o resultado das urnas não lhes é favorável. O incómodo causado pela presença do Chega na Assembleia Municipal diz mais sobre as fragilidades dos partidos tradicionais do que sobre o próprio partido. Se incomoda tanto, talvez seja porque expõe contradições, vícios instalados e décadas de política feita em circuito fechado.

O silêncio atual do presidente do PSD de Paços de Ferreira e do secretário-geral do PS local não é, por isso, um silêncio de reflexão estratégica ou de maturidade política. É um silêncio defensivo, de quem sabe que foi longe demais no confronto e agora aguarda que o tempo apague excessos que não deveriam ter acontecido. Mas o tempo, por si só, não resolve crises de confiança nem repõe a dignidade perdida.

Paços de Ferreira precisa urgentemente de uma política adulta, onde o debate seja firme, mas respeitador, onde a discordância não seja confundida com inimização, e onde as Assembleias Municipais voltem a ser espaços de discussão séria e não palcos de espetáculo. A democracia local não pode continuar refém de egos feridos, lutas de poder ou narrativas de exclusão. Caso contrário, este inverno político arrisca-se a prolongar-se e quem pagará o preço não serão os partidos, mas os cidadãos.

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