OpiniãoDescobriu "Lisboa Menina e Moça"

Descobriu “Lisboa Menina e Moça”

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O Heróico Sacrifício de Quem Descobriu que Lisboa Fica Longe

Humberto Brito não se recandidata à liderança da Concelhia do PS de Paços de Ferreira. O motivo é de uma nobreza comovente: o mandato parlamentar fixa-o em Lisboa, e a concelhia exige proximidade. Quem diria. Foi preciso chegar a deputado para descobrir que governar um partido local à distância tem os seus inconvenientes.

Tocante.

Sobretudo porque, justamente agora, o que os partidos locais menos precisam é de dirigentes ausentes. Mas a saída de Humberto Brito é só o episódio simpático. A história a sério é outra: o estado em que ficou a chamada democracia partidária por estas bandas.

Recordemos o feito recente do PSD local, onde pouco mais de meia centena de militantes “decidem falar pelo PSD de Paços de Ferreira” como sublinha num dos seus artigos de opinião, João Paulo Brito. Uma multidão. E que ninguém pense que é exclusivo dos laranjas, é desporto transversal. As concelhias encolheram até caberem numa sala pequena, o debate evaporou-se, as listas únicas multiplicaram-se como cogumelos e os militantes foram promovidos a espectadores de decisões tomadas algures, por gente muito ocupada.

Durante anos vendeu-se aqui a lenda da máquina socialista invencível. Comovente mitologia. Acontece que não havia máquina nenhuma, havia um senhor. E, a julgar pelo que restou, tudo aponta para que a pouca massa crítica interna que ainda existia se tenha ido desvanecendo à sua volta. As urnas, essas chatas, trataram de desfazer o conto de fadas.

Nas legislativas, com Humberto Brito devidamente colocado na lista à Assembleia da República, o PS não se limitou ao habitual tropeção: ficou atrás da AD e ainda foi ultrapassado pelo CHEGA no concelho, obteve o honroso 3º lugar de Humberto Brito. Para quem mandava há anos, é um tombo histórico. E se o partido dependia ou já se confundia com o brilho pessoal deste cacique, então é ainda mais eloquente do que parece.

O melhor veio nas autárquicas, num exercício de fina ironia popular. Os eleitores entregaram a Câmara a Paulo Ferreira, a continuidade, e, na mesma respiração, deram ao PSD a maioria das juntas de freguesia e a Assembleia Municipal, como bem nota o Prof. Ricardo Pereira num dos seus artigos de opinião.

Traduzindo: separaram a pessoa do partido, o projeto da sigla, a confiança da fidelidade. Uma lição de maturidade democrática que certas estruturas insistem, com mérito notável, em não perceber.

Entretanto, despede-se o protagonista a falar no “fim natural de um ciclo”. Compreendem-se estas frases feitas, daquelas que, não raras vezes, servem sobretudo para preparar o terreno a outras de teor mais… jurídico. Mas, curiosamente, tem razão.

Só que o ciclo que termina não é o dele, é o de um modelo de partido feito de poder concentrado, lideranças providenciais e bases decorativas. Durante anos disseram aos militantes que eram a alma da coisa; quando houve desavenças a sério, perceberam que a alma decidia pouco e que o resto se resolvia lá em cima. A própria distrital socialista, ao meter a colher em assuntos internos locais, mostrou bem quanto vale a autonomia de uma concelhia quando estorva.

E há um pormenor que o adeus, esse, prefere não mencionar. Em maio, a Assembleia da República levantou-lhe a imunidade parlamentar por unanimidade e, diga-se, sem oposição do próprio, para que responda em tribunal num inquérito que corre no Juízo de Instrução Criminal de Penafiel, onde deverá ser constituído arguido por alegada difamação, injúria e ofensa à memória de pessoa falecida. Vigora, como deve ser, a presunção de inocência: nada está julgado, nada está decidido.

Ainda assim, o leitor fica autorizado a fazer as contas e a perguntar se o súbito “fim de ciclo” tem mesmo a ver com os quilómetros até Lisboa ou se haverá, bem mais perto, outras razões a pesar na decisão. Ironia das ironias: para se defender, o deputado invoca a liberdade de expressão e a jurisprudência do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, sustentando que o que escreveu não passa de “criação literária e linguagem figurativa”. Precisamente o chão em que assenta, também, um artigo de opinião como este.

E não foi só a imunidade a cair.

Há poucas semanas, num processo em que era ele o queixoso, o tribunal recusou-se a levar a julgamento um jornalista que Humberto Brito acusara de difamação e foi o próprio deputado quem ficou com as custas. Na decisão, o juiz reafirmou que a crítica a figuras políticas goza de margem especialmente ampla e que a liberdade de imprensa prevalece em matérias de interesse público. A ironia fecha-se sobre si mesma: o mesmo homem que invoca a liberdade de expressão para se defender num processo é o que, noutro, tentou usar a difamação para calar um ‘crítico’, e perdeu.

Fica, portanto, a pergunta que interessa. Não é por que sai Humberto Brito. É o que sobra depois dele. Se a estrutura era forte, aguentará. Se a mobilização era real, manter-se-á. Mas se tudo se segurava num nome, o anúncio desta semana é bem mais do que uma troca de presidente, é a fatura.

Porque, convenhamos, a desculpa da falta de tempo soa a pouco. Lisboa não mudou de sítio. O Parlamento não apareceu do nada. O que mudou foi o resultado nas urnas. E quando os números desmentem a lenda, o “fim de ciclo” deixa de ser eufemismo simpático para passar a ser, simplesmente, a descrição exata do que aconteceu.

ETAR

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